segunda-feira, 24 de julho de 2023

De “A a Z” - sem filtros -

Por: Maria dos Reis Gomes
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)

Numa recente arrumação de estantes encontrei o livro - “Dicionário de Paixões” - de João de Melo. O livro organiza-se como um dicionário com pequenos textos de A a Z que revelam interesses do autor. Inspirou-me de diferentes modos. Poderia colocar o mesmo título nos textos que a partir de agora me proponho escrever pois, ao “pegar” na ideia que não é original, acabo por refletir sobre sentimentos, vivências, preocupações e talvez paixões.
Procurei para cada letra selecionar palavras que, no momento da escolha, ocupavam a minha mente por uma ou outra razão. Todas bastantes espontâneas. Não há por isso uma sequência de assuntos.  
Os textos agora apresentados integram os primeiros ensaios da continuidade que pretendo estabelecer.

Argumentar – Desde pequena usei a palavra para questionar, opor, replicar sobre assuntos em que pensava ter já uma opinião consolidada. A minha Mãe não achava muita piada e ouvi alguns “sermões”, mas não desistia… Acabava sempre por ser chamada de “teimosa” com a minha argumentação…e com a célebre frase – “contigo o pobre pode sair sem esmola mas não sai sem resposta” Acabava-se a conversa.
Valeu a pena. Gosto de assistir a uma boa argumentação. Gosto de perceber que afinal não há verdades absolutas, que cada assunto tem sempre diferentes leituras e que a opinião do sujeito não pode ser fundada somente num aspeto, isto é, faz-se a partir da relação do ser individual com o ser coletivo.
Penso mesmo que seria importante que a Escola - os professores nas suas aulas em conjunto com os alunos - desenvolvessem esta prática para fortalecer a capacidade de pensar, refletir e como preparação de uma vivência plena da cidadania. 

Bragança – A minha querida cidade de origem. Amo a beleza natural desta cidade. O frio do inverno e a estiagem no Verão. Arranjamos sempre formas de nos defender de um e outro excesso. Amo as gentes, a minha gente que me mantém presa a este espaço, onde regresso sempre com uma enorme alegria. Quando aqui me desloco a viagem é incrivelmente prazerosa em todas as estações do ano. Elejo as cores mornas do outono, os ouriços caídos dos castanheiros, o cheiro das castanhas assadas que me esperam, o passeio pelas margens do rio Fervença a pedirem um agasalho pois, o frio do Inverno começa a espreitar. Gosto de fazer este passeio ao longo do rio com os meus irmãos, quando isso é possível. Multiplicam-se as histórias das vivências de cada um. Depois é a chegada a casa, o acender da lareira, o assar das “benditas” alheiras e degustá-las em cima do pão caseiro, cozido nos fornos a lenha, talvez em Gimonde ou em qualquer outro lugar que “fornece” a cidade.

Castelo – Obviamente é o Castelo de Bragança que conservo na minha memória, mesmo quando visito outros.
Para mim, este castelo já o é inteiro mesmo quando só começo a subir a chamada “costa grande” e vislumbrar os jardins que se antecipam à entrada do “burgo”. A recuperação das casas da “vila” tem sido excelente. As tasquinhas são acolhedoras, o museu do careto também. 
Dentro das muralhas destacam-se a Domus Municipalis e a igreja de Sta. Maria, monumentos datados do século XIII, com diferentes significados e estilos. Qualquer roteiro sobre a cidade se esmera sobre estas e outras informações. Não deixo de referir a fantástica vista que o local nos proporciona.
Da célebre Torre da Princesa, a norte da Muralha do Castelo, tive como certa a lenda que se contava de uma Bela Princesa encarcerada na torre, pois o seu tio que era muito “cruel” não a deixava casar com o seu amado (sem títulos nem bens). Um belo dia, um raio de sol brilhou, a janela do cárcere abriu, e ela fugiu “suspensa” num grande sombreiro…que funcionou como paraquedas…. A lenda soava bem, na ingenuidade de qualquer criança que já sonhava com finais felizes.
Numa visita de estudo que fizemos ao castelo - andava eu na Escola Primária, ficaram-me em mente umas “peças” expostas no Museu, que não valorizei. Evidentemente a Torre da Princesa ganhou dimensão. A lenda que eu já conhecia teve mais significado.
Quando chegámos à escola e nos pediram o registo gráfico da visita… eu desenhei a Torre e a princesa já a “voar” protegida pelo paraquedas improvisado. Iluminava a “cena” um gigantesco sol e andorinhas estilizadas que acompanhavam a personagem principal da estória.

Por agora, termino aqui. Outros significados se seguirão…

Maria dos Reis
23 de julho de 2023


Maria dos Reis Gomes
, nascida e criada em Bragança.
Estudou na Escola do Magistério Primário em Bragança, no Instituto António Aurélio da Costa Ferreira em Lisboa e na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação no Porto, onde reside.

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