sábado, 22 de julho de 2023

APRECIA-SE O QUE NÃO SE CONHECE

Por: Humberto Pinho da Silva 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Disse bem Jardiel Poncela, quando disse: “De lejos, todo parece más pequeno, a excepción del hombre inteligente, que de lejos parece mayor."
Disse bem, porque o sábio, o intelectual, é sempre mais admirado, se vive afastado, apartado no gabinete de trabalho.
A familiaridade, a intimidade, minimiza-os, quer seja – cientista, professor, artista ou escritor.
Aprecia-se o que não se conhece.
Raras vezes os familiares dão-lhes o devido valor. Para os filhos e para o conjugue, é quase sempre um excêntrico, " maluquinho", que usa o mesmo alojamento e os mesmos utensílios domésticos.
Por vaidade, orgulham-se de lhes correr nas veias o mesmo sangue, mas só por vaidade!...
Jesus não foi capaz de realizar milagres na Sua terra, porque sabiam de quem era filho, e conheciam-No desde a adolescência – Mt.13:55; Mc6:3
Poucos conheciam Guerra Junqueiro, quando a RTP foi a Freixo de Espada à Cinta. O repórter desceu à rua, e perguntou se sabiam quem era Junqueiro.
Uns sabiam que fora o dono da Quinta da Batoca. Velhinho, que o conhecera, disse – “que era baixinho, de enormes barbas, quase sempre trajado modestamente: Como pobre!..." Mas poucos o conheciam como poeta e escritor.
Já Jesus lembrava: " Não há profeta admirado na sua terra." - Mt13:57
Velhinha risonha, que fora criada de Alexandre Herculano, dizia muito divertida ao ser-lhe perguntado se conhecera o escritor. " Conheci, conheci, era um grande preguiçoso!..."
"Preguiçoso", admirado por Pedro II do Brasil, que prezava de o ter como amigo, chegando a almoçar em Vale de Lobos.
Por se dar muito valor ao que está longe, é que licenciados procuraram doutorar-se fora do seu país. O vulgo, admira e acredita mais, o que se obtêm no estrangeiro.
A rainha do Sabá não foi ouvir Salomão? Todavia os judeus tinham no seu seio quem foi maior que Salomão – Jesus. Mas não acreditaram Nele, porque era um deles – Lc11:31
Não escreveu Erasmo: " Duas coisas, sinto-o, se me tornam verdadeiramente necessárias: em primeiro lugar ir à Itália, para dar à minha cienciazinha a autoridade desta ilustre estadia; depois, obter o grau de doutor: ambas as coisas são igualmente absurdas: ninguém muda de espírito por atravessar o oceano, como diz Horácio, e não regressarei com mais sabedoria, nem como um cabelo. Mas os tempos são assim; ninguém, mesmo as pessoas mais sensatas, acredita no nosso mérito se não vos pode chamar Mestre?”
E o velho adágio, não diz: Que o pão da tia é sempre melhor do que o da mãe?

Humberto Pinho da Silva
nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG” e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".

Sem comentários:

Enviar um comentário