segunda-feira, 24 de julho de 2023

Desterro de Jesuítas para Bragança – Sua expulsão do reino


...continuação
 
As notícias que vão ler-se são tiradas das Anedotas do Ministério do Marquês de Pombal, obra escrita com intuitos faciosos e, por isso, nem em tudo exacta.
Por iniciativa do Marquês de Pombal, fundou-se em 1755 uma companhia comercial no Maranhão, de fracos resultados. Ora, sucedeu que pregando na patriarcal em Lisboa o padre Ballister, jesuíta, sobre o texto do Evangelho – Facite vobis amicos de mamonae iniquitatis – disse ao auditório que vinha propor-lhe uma nova companhia de seguros resultados, com os fundos aplicados no céu. Pombal, julgando-se alvejado pela alegoria, fez com que o pregador fosse desterrado para Bragança, não lhe dando mais que uma hora de preparativos para a viagem(687). Anedota e desterro não destoam do carácter chispante da ironia jesuítica e da índole feroz do ministro.
Igualmente desterrou para Bragança o padre Bento da Fonseca, procurador da missão do Maranhão, incriminado de haver cooperado para uma representação em que o comércio de Lisboa expunha ao rei os inconvenientes da companhia do Maranhão(688).
Para o colégio de Bragança veio também desterrado, por intermédio do mesmo marquês, o jesuíta padre Ferreira. A darmos crédito às Anedotas, o seu crime consistiu em haver socorrido a mãe de Pombal na indigência a que este a reduzira espoliando-a dos bens a pretexto de demência e, como receava que o jesuíta, desfazendo o logro, lhe sugerisse meios de fazer testamento, preveniu-se, desterrando-o(689).
Receando também que o padre António Torres, jesuíta, superior da casa professa da ordem em Lisboa e que em Roma fora por vinte anos penitenciário e provincial, influísse no ânimo do núncio Acciaiuoli, de quem era amigo, e este no do novo Papa eleito a favor dos Jesuítas, desterrou-o para Bragança (690).
A 13 de Dezembro de 1758, foi intimada ordem pelo cardeal patriarca ao superior dos Jesuítas para não saírem fora de suas casas.
Os padres da Companhia das outras terras do reino ainda gozaram da liberdade até ao princípio de Fevereiro de 1759, à excepção dos de Setúbal, Santarém e Bragança. A esta cidade veio tirar devassa contra eles o desembargador do Porto, Raimundo Coelho de Melo, esbirro do marquês, que se assinalou pelo rancor com que procedeu contra eles: prendeu logo e os pôs incomunicáveis os padres Paulo Ferreira e António Torres, acima mencionados, que depois transferiu para dois calabouços da cidadela, de onde foram removidos em 27 de Outubro de 1759 para os de Almeida (691).
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(687) Anedotas do Ministério do Marquês de Pombal e conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho, sobre o reinado de D. José I, rei de Portugal, traduzidas da nova edição francesa. Porto, 1852, livro I, pp. 16 e seguintes.
(688) Ibidem.
(689) Ibidem, livro II, p. 114.
(690) Ibidem, p. 133.
(691) Ibidem, livro III, p. 222.
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«O Porto, dizem as Anedotas falando da expatriação da ordem, devia ser o ponto de reunião dos jesuitas de Bragança.
A 26 de Outubro de 1759 veio Raimundo anunciar aos professos que tinha chegado o momento de partirem e lhes mandou que tomassem as suas capas e se juntassem na capella da casa, onde os deixou encerrados e só voltou no dia seguinte depois de ter feito passar a mais triste noite a oito sacerdotes, seis irmãos coadjutores e dois velhos doentes.
Eis como elle dispôz a marcha: na frente ia uma trombeta que devia tocar à entrada dos logares do transito. Soldados de cavallaria escoltavam os presos que iam montados em ridiculas cavalgaduras, mal arreadas e tão pequenas que alguns iam com os pés árrasta. Tinham ordem de irem em silencio e andar sempre, o que se tornava difficil num paiz escabrozo.
As cavalgaduras, fatigadas e sem mantimento, tropeçavam a cada momento e se deitavam na lama.
Partiram a 27 de Outubro de 1759 á noite, e neste dia lhes deram de jantar mas no seguinte jejuaram. Passaram tambem a noite num pequeno aposento, onde não poderam encontrar logar para se assentar!
Todos estes maus tratamentos não faziam senão augmentar a veneração em que a gente do campo os tinha. O som da trombeta que os atrahia parecia preludiar mais um triumpho do que um destêrro. O povo seguia-os banhado em lagrimas, chamando-lhes santos perseguidos, recommendando-se nas suas orações e não os deixando sem que elles lhes lançassem a sua ultima benção.
A 29 de Outubro começaram a caminhar antes de alvorecer e não pararam senão de noite. Apenas os religiosos tinham posto pé em terra e sem lhes darem tempo para comerem um bocado de pão, os fizeram tornar a montar. O Reitor, por mais que pediu de joelhos aos pés do Raimundo, que lhe concedesse ao menos uma hora para tomar algum sustento, não pôde movel-o, nem fazendo-lhe vêr o seu extremo cansaço. O padre Mesquita, que era muito fraco para se conservar tanto tempo a cavallo, foi posto numa liteira e a poucos passos, cahindo esta na lama, viu-se que o padre estava moribundo, mas não foi possivel obter licença para se pôr um delles ao seu lado e assistir-lhe nos seus ultimos momentos.
Raimundo mandou continuar a marcha, chegando ao collegio do Porto não houve mais tempo que para trazer-lhe a Santa Uncção e antes que ella se concluisse expirou»(692).
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(692) Ibidem, livro IV, p. 65.
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A 23 de Novembro de 1759 embarcaram os Jesuítas reunidos no Porto para Civitavecchia (Itália), onde aportaram noventa e quatro dias depois, e assim ficou Portugal privado desta ordem religiosa, que lhe dispensou tantos benefícios entressachados de alguns males como tudo o que é humano.
Se alguém achar demasiado lamurienta a narração das Anedotas desopile com o supra summum do herói-cómico, lendo a Brincatio Poetica da Macarronea Latino-Portugueza.
O actual Seminário enquanto foi habitado pelos Jesuítas era chamado Colégio do Santo Nome de Jesus de Bragança. O rendimento dos bens que aqueles aqui tinham orçava por 12 218$729 réis, como se vê das contas tomadas em 1768 ao capitão Domingos Pires Aires, primeiro tesoureiro desses bens confiscados para a fazenda real, em cujo cargo lhe sucedeu seu filho Bernardo Baptista da Fonseca e Sousa (693).
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(693) Arquivo Distrital de Bragança, Livro do Registo da Câmara de Bragança, lv. 26, mç. 6, fl. 214.
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continua...

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

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