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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Episódios da vida - “O estranho caso das balizas sem redes”


 Há muito, muito tempo, cerca de 50 anos, chego a Bragança vindo de Angola e sou confrontado com um ambiente muito contrastante com aquele que tinha vivido até então. Sociedade mais fechada, mais tradicional, mais ensimesmada entre o sagrado e o profano. Talvez o clima tivesse algo a ver com esse facto ou então o obscurantismo imposto durante a vigência do Estado Novo. De qualquer forma, já o disse, adaptei-me rapidamente a este modo de viver e Bragança passou a ser a minha cidade. Mas o que mais estranhei foi a quase inexistência da prática desportiva regular, nomeadamente aquela enquadrada em agremiações desportivas. Estava habituado em Luanda, onde havia inúmeros clubes, que incorporavam um grande número de jovens da cidade, preenchendo-lhes os tempos livres e proporcionando-lhes um tipo de vida sadia e determinada.  Os recintos desportivos estavam sempre disponíveis e, inclusivamente os clubes iam buscar os atletas aos estabelecimentos de ensino para os treinos e depois levavam-os a casa. Eu vivia perto de um clube onde se praticava futebol, basquetebol (masculino e feminino), hóquei em patins, andebol e atletismo. Saíram de lá alguns craques conhecidos. Eu, particularmente, fui atleta federado de futebol, basquetebol e andebol. Embora fosse um bom jogador de futebol e de basquetebol, foi no andebol que atingi um nível não despiciendo, perdoem-me a imodéstia. E, na realidade, poderia ter chegado a um nível ainda superior, não fosse contingência de ter vindo parar a Bragança, onde não havia andebol de competição. Não me posso esquecer que, pelo menos um colega de equipa, chegou a ser convocado para a seleção nacional. A diferença foi a ida dele para Vila Real, onde existia o Bairro Latino, equipa do primeiro escalão do andebol português. E depois em Bragança havia finos. Os primeiros que bebi de uma série interminável. E sem treinos.

Dito isto, acrescento que tive ainda o gosto de jogar no Clube Académico de Bragança, nos juniores de futebol, obviamente. Naquela altura era a única modalidade existente. Não me lembro de todos os elementos da equipa, mas digo que foram meus companheiros entre outros o Beto Antas, o Chico Prior, o Zé Santulhão, o Chico Ferreira, o Nuno Cristóvão, o Fraga e o Nogueiro, sendo que eu, jogando a central ou lateral direito (defesa direito, naquele tempo) era titular só de vez em quando. E o treinador era o saudoso Machado, também conhecido por Meirim.

Mas a história que me impeliu a escrever estas linhas, embora ligada ao desporto, vai por caminhos mais ínvios. Tendo indagado junto das repartições públicas que me pareceram mais adequadas (Câmara Municipal, Governo Civil e FAOJ), acerca das razões para não se concluir o então esqueleto do Pavilhão Municipal e não havendo respostas para o efeito, resolvi virar-me para os recursos existentes para a prática do futebol de salão. Juntamente com mais dois amigos, o Tó Corredeira e o António Mêda (que também tinha vindo de Angola), começamos a matutar na possibilidade de organizarmos um torneio de futebol de salão no inverno (inverno a sério!!), para nos mantermos em atividade e abanar um pouco as parcas atividades em decurso. O problema era o recinto. O ginásio da Escola Industrial não era adequado e o do Liceu estava sem horários livres. Solução? O campinho da Escola Preparatória Augusto Moreno. Obstáculo: o teto era estrelado. Mesmo assim, não havendo escolha, optamos por pedir autorização para o efeito, considerando que as temperaturas invernais noturnas não eram de todo nenhum impedimento para um bom desempenho desportivo.

Deitamos então mãos à obra. Ou seja, começamos por fazer o esboço do respetivo cartaz anunciativo e das fichas de inscrição, mandamos executá-los numa gráfica e eis que, passados dois ou três dias, afixamos nos estabelecimentos de ensino e nos principais cafés da cidade o memorável cartaz do “I Torneio de futebol de salão MUSANGOLA”, com pompa e circunstância.

Relativamente à pompa, numa visita para verificarmos se as condições do recinto estavam em conformidade, descobrimos que as balizas não tinham redes, nem havia quaisquer exemplares na escola. Quanto à circunstância, na demanda de uma solução satisfatória, deparamos com um final muito conturbado, o qual serviu como enfoque de toda esta prosa.

Penso que se inscreveram oito equipas, mas só já me lembro de três: “Os Raianos de Avelanoso”, com a participação do nosso internacional; “Batoques”, com uma equipa de luxo (Irmãos Almeida, Leal, David, Fernando Sousa, Zé Assunção e outros) e outra equipa de lux(uria), “Saturno Club”, cuja mentoria pertencia ao administrador deste blog, o meu amigo desde então, Henrique Martins.

Mas voltando ao enredo novelístico, o trio tinha um grande problema para resolver: arranjar redes para as balizas, desse por onde desse. E como naquele tempo não havia Horizon, Temu ou Alibabá, passe a publicidade, foi necessário pensar rapidamente numa solução aceitável. E a luz fez-se no exterior do Liceu durante um período sem aulas: as balizas dos campos de jogos tinham REDES! Bastava pedir autorização para que se pudessem utilizar no campo de jogos do ciclo preparatório. E isso ia ser canja, pensamos nós, considerando a “notável importância” do torneio. Mas não foi bem como imaginávamos. Por mais que argumentássemos e implorássemos, não nos foi concedida a possibilidade do uso das benditas redes noutra latitude. Foi o completo desânimo.

Todavia, puxámos dos galões, pensamos maduramente sobre o assunto e decidimos: se não vão a bem vão a mal. Ponto. E o que é que estas mentes brilhantes (também as havia, na altura) alvitraram: como era inverno e anoitecia cedo, resolvemos comparecer no liceu por volta das 19 horas e, sub-repticiamente, desmontar as redes das balizas, colocá-las nas balizas onde se iria realizar o torneio e depois fazer a operação inversa. Ninguém iria dar pelo sucedido. E se bem o pensámos, melhor o fizemos.

Assim, à hora marcada, comparecemos no local combinado, ou seja, no campo do lado direito do Liceu e começámos a realizar a operação. Estava escuro como o breu, mas a vontade era tanta, que mesmo nestas condições começámos a operacionalizar a árdua tarefa que tínhamos pela frente. Nesse entretempo, deu-me a impressão que vi passar um vulto, ainda a alguma distância, em direção ao Lar da Gulbenkian, saindo pelo portão que ainda hoje existe naquela zona. Ora, estão mesmo a ver o desenrolar do filme, não é? Ainda mal tínhamos iniciado a operação e começámos a ouvir um barulho esquisito, tipo tropel, precisamente vindo da referida residência estudantil. De repente, surgiu no nosso horizonte, uma chusma de rapaziada a correr na nossa direção, alguns munidos de objetos mais ou menos contundentes e a gritarem desalmadamente. Meus amigos, aquilo é que foi um “ver se te avias”. Largámos a empreitada de supetão, descemos a escadaria do liceu e cada um fugiu para seu lado, a uma velocidade que poderia dar direito a multa. Só nos vimos no outro dia, murchos e tementes que alguém nos tivesse reconhecido o que, parece-me, não foi o caso. Por onde os outros dois foram não sei. Mas do meu percurso de fuga, lembro-me bem. Embora morando no Bairro da Mãe de Água, não fui para esse lado. Desci por um “carreirão” que ligava o Liceu ao Café Mini Copa, desci a rampa do Senhor dos Aflitos (que era o caso), virei à esquerda pela Rua Alexandre Herculano e só parei na confluência com a Rua 5 de Outubro, ao pé das bombas de gasolina da Mobil, que existiam naquele tempo.

E aqui está, como as mentes brilhantes têm ideias de tal forma estapafúrdias, que normalmente resultam em asneirada. E eis aqui a minha primeira aventura em terras bragançanas. Se algum elemento do grupo defensor do património liceal (os rapazes da Gulbenkian) ler estas linhas e tiver participado naquela ação defensiva já fica a saber quem eram os concessionários. De qualquer forma, o desvio não chegou sequer a acontecer e mesmo que tivesse, já há muito que estava prescrito, como acontece na maior parte das vezes neste país.

Para finalizar, direi que o torneio decorreu SEM redes nas balizas, mas mesmo assim seguiu o seu curso, sem grandes conflitos. Já não me lembro quem ganhou o Iº (e único) Torneio Musangola, mas sei quem recebeu o troféu de melhor marcador. É esse mesmo que vocês estão a pensar: o Henrique Martins. Talvez ele se lembre quem foram os vencedores, embora eu tenha a ideia de que foi a equipa dos Batoques.

Moral da História: os caminhos para o sucesso nem sempre são lineares. [Ironia no máximo expoente].

Janeiro/2026

Manuel Carlos Dias Morais

1 comentário:

  1. Que rico és meu companheiro de sempre, que rico és. Que memória aqui nos trazes.
    Se me alongo no comentário escrevo cinquenta páginas… uma por cada ano que já passou sobre o Torneiro Musangola.
    O Bairro Latino não era apenas uma referência no Andebol, era-o também em Voleibol. Muitas vezes o defrontei nessa modalidade.
    Não me recordo quem ganhou o Torneio Musangola. Penso que o Saturno ficou em 3º Lugar. A pequena taça que premiava o melhor marcador, de grande simbolismo para mim, que está junto a outras num recanto da garagem, serve para me recordar o tempo em que as minhas pernas serviam para mais do que andar e os pés para mais do que calçar meias e sapatos.
    Tenho bem presente o episódio central desta tua memória, as redes. Não porque estivesse presente mas porque mo contaste… há mais de 50 anos.
    Grande abraço companheiro…
    HM

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