No sábado passado, 30 de Julho, foi apresentado no Barrocal do Douro (Picote), o livro Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz. A obra, coordenada por Henrique Manuel Pereira, reproduz um álbum de cerca de 200 fotografias, a preto e branco, na sua esmagadora maioria da autoria do padre Telmo Ferraz e por ele legendadas. Retrata a realidade da barragem de Picote, a primeira do Douro Internacional, iniciada em 1954 e inaugurada em 1958, um marco da engenharia e arquitectura portuguesa da época e um contributo para a industrialização do país. Este empreendimento está atualmente classificado como conjunto de interesse público, um dos raros exemplares da Arquitectura Industrial Moderna Portuguesa.
![]() |
| “Uma aura de autenticidade emana deste conjunto fotográfico. Alguns dos protagonistas parecem olhar-nos a pedido, outros surpreendidos no instantâneo dum tempo muito curto de exposição.” |
Telmo Ferraz, que foi padre da Obra da Rua/Casa do Gaiato, publicou O Lodo e as Estrelas, no qual falava da vida dos operários e foi apreendido pela PIDE. Em Rostos de uma Barragem, ele retrata as “pessoas de carne e osso” que contribuíram para a edificação daquela importante obra de engenharia e arquitectura.
Na apresentação do livro, promovida pela Alforria e pela Frauga – Associação para o Desenvolvimento Integrado de Picote, participaram, além do organizador da obra e do autor, também vários responsáveis de associações e estruturas locais, além do actual arcebispo de Braga (e que foi bispo de Bragança-Miranda até há poucos meses), José Cordeiro.
As imagens do livro são acompanhadas por excertos de O Lodo e as Estrelas em versão bilingue (português/mirandês). Pela importância deste documento social e histórico, o 7MARGENS reproduz a seguir o texto introdutório de Henrique Manuel Pereira.
A fotografia não rememora o passado (não há nada de proustiano numa foto). O efeito que ela produz em mim não é o de restituir aquilo que é abolido (pelo tempo, pela distância), mas o de confirmar que aquilo que vejo existiu realmente.
Roland Barthes
Rostos de uma Barragem reproduz um álbum de cerca de 200 fotografias, a preto e branco, na sua esmagadora maioria da autoria do Padre Telmo Ferraz e por ele legendadas. Retrata a realidade da barragem de Picote entre os inícios da sua construção e inauguração (anos 1954-1959). Irradiação de vida e de memória, configura um documento social e histórico.
Telmo Ferraz, próximo dos 97 anos de idade, é natural de Bruçó, Mogadouro. Nos anos 1950 foi capelão da barragem de Picote, desenvolvendo um extraordinário trabalho pastoral e humanitário junto dos operários. Dessa experiência resultou O Lodo e as Estrelas (1960), lançado a público em finais de junho de 1960, em corajosa edição de Autor impressa em Braga e com prefácio de F. Videira Pires. Pungente e incómodo, ilustrado com 41 desenhos e capa de Maria de Lourdes Chichorro Rodrigues, o livro foi apreendido pela PIDE [polícia política do Estado Novo]. Sem que o seu autor o pretendesse ou previsse, O Lodo e as Estrelas deu-lhe a imortalidade simbólica.
Assim, não se estranhará que Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz seja pontuado por passagens da 1ª edição de O Lodo e as Estrelas em versão bilingue (português/mirandês). Não é uma subordinação da palavra à imagem, no sentido do que, há décadas, circula como um dogma, defendendo que uma imagem vale mais do que mil palavras. Desnecessário será contrapor o seu contrário como igualmente verdadeiro.
A figuração do mundo adota aqui um registo de fotografia documental. Todavia, pela sua natureza, a fotografia é seletiva e incompleta. Incapaz de condensar toda a complexidade e multiplicidade do real, é uma versão parcial e fragmentada da realidade. Aqui, um palco de tragédias íntimas e públicas, uma certa humanidade escondida. Ali, paredes meias, um outro mundo, uma “cidade ideal”, um património imaterial e arquitetónico celebrizado como moderno escondido.
Dir-se-ia que, em Rostos de uma Barragem, um capelão, algures nos confins das fragas transmontanas, “trava”, na expressão de F. Videira Pires, “o diálogo, profundo e necessário, com as máquinas, os camiões que passam, as gruas que rangem, os fraguedos que desabam, os zimbros agressivos, as estrelas, o vento, os farrapos, as lágrimas, os casebres, os operários, as crianças, as mulheres, os mendigos, as prostitutas, as grossas dores, as poucas alegrias”. E os sacos de papel, as frinchas, o contraste do frio áspero e cortante com o calor de fornalha, o Douro bravo, torrencial, a paisagem ciclópica, agreste, inóspita.
Não se trata de romantizar a pobreza, mas de a denunciar, de ser, na humilde medida do possível, “o dedo que aponta”. Uma aura de autenticidade emana deste conjunto fotográfico. Alguns dos protagonistas parecem olhar-nos a pedido, outros surpreendidos no instantâneo dum tempo muito curto de exposição. As palavras simples com que Telmo Ferraz guarda e eterniza os mínimos instantes têm textura de drama e de oração. Também assim as imagens e algumas das legendas manuscritas.
Uma boa fotografia não é necessariamente uma bela fotografia. O olhar pessoal e subjetivo, além da temática predominante, desaconselha análises técnicas, racionais ou mesmo estéticas. Atenta à poética do espaço, a objetiva (ou “caixotinho”) interessa-se sobretudo pelas pessoas. Há uma antropologia aqui a perscrutar.
![]() |
| Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz é um “álbum de família”. |
Sequenciada em blocos temáticos – trabalhos, habitação, trabalhadores, família, ação pastoral, colónias de férias –, a narrativa de Rostos de uma Barragem não é convergente com o álbum original, composto por 44 folhas cartonadas de 21×30 cm presas por um atilho. Privilegiámos a informação em detrimento dos cânones de qualidade, cabendo neste critério o que julgamos serem provas de contacto e, com particular satisfação, as imagens em que inadvertidamente se projeta a sombra do fotógrafo. Do conjunto original excluímos as fotografias que se afastam do genius loci, guardam momentos particulares, como casamentos e batizados ou configuram presumíveis ofertas posteriores.
A palavra encontra o seu contexto e ilumina-se; a imagem dá forma à palavra de O Lodo e as Estrelas. Ambas contra o esquecimento de destinos e rostos. A memória escreve no vento; a palavra e a imagem fazem o milagre das raízes.
“Ora isto, Senhores” – diria António Nobre – “deu-se em Trás-os-Montes”, ali por Picote, Miranda do Douro, em terras desse Reino Maravilhoso de que nos falou Torga. Mas olhar este passado não é olhar para trás, é olhar para a frente e mais alto, é a articulação simultânea do passado, do presente e do futuro.
Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz é um rosto plural e, todavia, radicalmente singular. Um rosto que não consente nome porque em nenhum se diz. Um rosto que nos habita como um indistinto rumor, personagem secundária, mas essencial à longa viagem de uma identidade coletiva. Este livro é, pois, um álbum de família.
Une-me a Telmo Ferraz uma amizade maior do que qualquer palavra. Não direi privilégio – vocábulo de efeito, gasto, delido, emudecido, sem vibração, de tão mentirosamente debitado ou escrito em textos de circunstância. Entendo-o como da ordem do dom ou da bênção. Não sendo novidade para ele, gostava que fosse confirmação.
Creio não ter a acrescentar ao seu retrato nada que não seja folhagem inútil. Como adiante afirmo, “o que quer que sobre ele diga ou escreva deixa-me sempre a impressão de ficar no limiar de algo profundo ou muito alto”. Mesmo o mosaico de testemunhos, de distintas idades e geografias, inscritos em O Homem que do Lodo Fez Estrelas é esforço inacabado, aproximação sem ponto de chegada, retrato provisório.
À pluralidade de leituras trans e interdisciplinares que aqui se oferecem, aditamos o nome dos estúdios fotográficos que, em número desigual, revelaram e imprimiram as fotos deste álbum: “Foto Imperial – Porto fevereiro 1957”, “Foto Alves – Chaves”, “Marius – Vila Real”, “Peixe – Moncorvo” e, sobretudo, “Bazar Foto Amador – Porto”, com datas de abril, junho, agosto de 1958 e janeiro de 1959; também a “Foto Império – Luanda”. São dados que autorizam várias especulações. Que máquina ou “caixotinho” as tirou? Qual a sensibilidade dos rolos? Há́ mais do que uma grafia nas legendas do verso de certas fotos. Quem as escreveu? Em que data foi montado o álbum?
Temos em mãos um trabalho de equipa. Por conseguinte, como quem desafia a usura do tempo e porque é justo e necessário, quero manifestar a minha gratidão à Margarida Baldaia e ao Pedro Cascalheira, pela cumplicidade de sempre; a António Bárbolo Alves, a pronta e competente tradução dos textos para mirandês; a Jorge Jacoto Lourenço, o entusiasmo e a mediação junto das entidades patrocinadoras que tornaram possível este Rostos de uma Barragem, o Álbum de Telmo Ferraz. A todos e a cada uma destas, a nossa gratidão.
Henrique Manuel Pereira é professor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa (Porto)
Organização de Henrique Manuel Pereira
Ed. Alforria, 2022; 252 págs., 30 €
FRAUGA, Associação para o Desenvolvimento Integrado de Picote
Rua de la Peinha de l Puio
5225-072 Picuote – Miranda de l Douro
frauga@gmail.com
Tlm. 918 216 168
Rua Mouzinho de Albuquerque
5210 Miranda do Douro
Tel. 273 431 421


Sem comentários:
Enviar um comentário