terça-feira, 30 de agosto de 2022

BAMOS A MIRANDA

 No âmbito do “Concelho em Destaque”, o mês de Agosto leva-nos à descoberta de Miranda do Douro, com um vasto património histórico, arquitectónico, paisagístico, patrimonial, gastronómico, cultural e musical


A localização de Miranda do Douro, junto à fronteira, conferiu-lhe o estatuto de importante ponto estratégico de defesa, daí a construção, por exemplo, do castelo. No século XVI foi elevada à categoria de cidade e de sede do Bispado de Trás-os-Montes. E agora, Bamos a Miranda...

Lhéngua – a nossa segunda oficial

O mirandês é, desde 1999, a segunda língua oficial de Portugal. É falada na Terra de Miranda e um dos seus maiores estudiosos foi Amadeu Ferreira, que traduziu obras como Os Lusíadas, de Camões, Mensagem, de Fernando Pessoa, e alguns clássicos romanos de Horácio e Virgílio. Foi também este filho da terra que reuniu alguns mirandeses na diáspora e assim se criou, em 2000, aquela que hoje é a Associaçon de Lhéngua I Cultura Mirandesa, grande defensora da língua. Segundo o presidente, Alfredo Cameirão, para além das traduções, apoio linguístico, recolha, tratamento e arquivamento de documentação em língua mirandesa, para posterior disponibilização aos estudiosos e público em geral, publicação de livros e cursos de língua e cultura mirandesa online, “muito tem sido feito mas está tudo por fazer”. Uma das grandes prioridades passa por conseguir construir um ou mais manuais para o ensino da língua. “Sabemos que vai haver uma proposta, no Orçamento Participativo Jovem de Miranda, para os criar. Por essa via ou por outra, com apoios, em colaboração com a escola e com os professores, faremos esse caminho porque é urgente arranjar material didáctico”, explicou. Neste momento, o programa da disciplina, leccionada apenas no Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro, é criado pelos docentes. Podendo ser frequentada por um aluno de qualquer ano, é uma disciplina extra- -curricular, mas a associação tem como “luta” converte-la em curricular. “O mirandês é escolhido por mais de 65% dos alunos, em média, nos distintos anos. Isto diz bem do interesse e carinho que os mirandeses tem pela sua língua”, afiançou. O mirandês também começou a estudar-se na internet, durante a pandemia, por iniciativa da associação. “Entendemos, às escuras, oferecer o primeiro curso online. Houve muito boa aceitação e, por isso, replicámo-lo quatro vezes. Depois decidimos passar para o nível II. Pensámo- -lo para 20 pessoas e logo no primeiro dia as inscrições esgotaram. Tivemos que fazer duas turmas, num total de 40 alunos, sendo que no primeiro nível participaram cerca de 130”, vincou. No ano passado a língua teve uma grande conquista, que foi Portugal ter assinado a Carta Europeia das Línguas Regionais e Minoritárias. Para Alfredo Cameirão, a demora na assinatura foi mais “inércia” que outra coisa, já que “o haver mais línguas não divide, multiplica”. Outro “passo visível” foi no ano passado o município de Miranda do Douro ter colocado mais de 1400 placas toponímicas em mirandês e português. As placas foram dispostas por 33 localidades do concelho. Um passo importante para Alfredo Cameirão que, ainda assim, diz que era necessário “esbarrar mais” na língua. “Dou um exemplo muito simples: um cartaz das festas de Verão pode perfeitamente ser escrito em mirandês. Desperta mais curiosidade do que escrito em português. É uma mais valia turística que o pode ser a nível económico”, assinalou, dizendo que o caminho também passa por aí, permitir que a língua ajude no desenvolvimento económico.

Os pauliteiros

Pensar em Miranda e não nos lembrarmos automaticamente dos pauliteiros é praticamente impossível. Um grupo de pauliteiros, sendo que em Miranda ainda há alguns, inclusive um de mulheres, baila ao som de ritmos tradicionais com paus. São os praticantes da dança guerreira característica das Terras de Miranda, que é acompanhada por caixa, bombo e gaita-de-foles. As danças são realizadas por oito homens ou mulheres, que usam uma vestimenta bem característica, saia bordada, camisa de linho, colete de pardo, botas de cabedal, meias de lã e, normalmente, um chapéu enfeitado com flores. José Meirinho, dos Pauliteiros de Fonte de Aldeia, que pertence ao grupo desde os seus primórdios, há 24 anos, admintindo que “a tradição é bastante antiga”, explica que, neste momento, esta colectividade integra cerca de 15 pessoas, não apenas daquela aldeia, mas também de Sendim, de Prado Gatão e até mesmo de Miranda. E para ser pauliteiro “não é preciso muito”, é necessário ter apenas “orgulho e gosto na tradição”. “Também é preciso ter interesse em que esta identidade se mantenha porque, de resto, tudo se ensaia”, vincou, frisando que, neste momento, em termos de ensaios, só o conseguem fazer uma vez por mês, mas o ideal era que até acontecesse semanalmente. José Meirinho, que afirma que no Verão, quando há mais festas e demonstrações, o ensaio é mais frequente, explica que a introdução de, por exemplo, músicas e movimentos novos implica um trabalho de recolha bastante grande. “Temos que falar com as pessoas mais antigas que dançaram e que têm alguma noção de muitos movimentos, sendo que são diferentes, muitas vezes, de aldeia para aldeia, até para a própria música”, esclareceu. Hoje em dia, a tradição não corre, nesta perspectiva, riscos. Ainda há quem queira dar-lhe continuidade. “Há jovens interessados. Isso há sempre. E nós também tentamos puxá-los para isto. E integrar um grupo de pauliteiros é sempre bom porque há a possibilidade de viajar até vários pontos do mundo que, de outra forma, se calhar, não se conseguia”, terminou o pauliteiro.

Senhora palaçoula

Entre tratamento de madeira e de aço, são precisos cerca de 80 passos para construir uma navalha de Palaçoulo. Possivelmente não tinha esta noção, mas é verdade. É necessário dar bem às mãos para criar estes pedaços de identidade, tão facilmente associados ao concelho. Pois bem, é em Palaçoulo, uma aldeia altamente industrializada, onde não há rasto de desemprego, que se situa uma das empresas mais conhecidas do concelho e que representa bem o que é toda esta tradição cutileira. A Cutelaria Martins foi fundada por um jovem “irreverente”, como o apelida, hoje em dia, um dos filhos e sócios-gerentes da empresa. “Como forma de evitar a emigração, o meu pai decidiu encontrar uma profissão, a de ferrador. Em 1954 foi à escola de Medicina Veterinária de Lisboa fazer o exame e regressou com a autorização para exercer a profissão. Depressa percebeu que era uma actividade muito sazonal e, tendo uma forja, começou a fazer as primeiras navalhas”, contou Alberto Martins, que, em conjunto com os outros três irmãos, dirige a empresa, fruto da “capacidade galvanizadora” do pai, que os foi envolvendo nos negócios. E são eles que tem muita da responsabilidade de, em 1986, a empresa ter dado um “salto”, com a mecanização da produção e a introdução de novos produtos, nomeadamente talheres e linhas de facas de cozinha. A navalha, noutros tempos o terceiro braço de um agricultor, tem hoje “uma centralidade diferente”. A vida muda e é preciso mudar com ela. Assim, a Cutelaria Martins, em 2008, decidiu assumir, perante a crise, uma mudança, que permitiu que a empresa pudesse dar mais um salto e dos grandes. “Definimos uma estratégia de médio/longo prazo, que passou por um restyle de peças, desenvolvimento de novos produtos e criação de uma cultura de inovação. Tudo isto, desde aí, nos diferencia e cada vez mais estamos alinhados com o nosso território, que queremos elevar”, explicou Alberto Martins. E pronto, foi assim que a cutelaria chegou ao que hoje vende. Produtos para todos os gostos e feitios. “Temos uma lista de clientes muito vasta e operamos em diferentes nichos de mercado. Trabalhamos o mercado dos brindes empresariais, em que customizamos as peças à medida do cliente, temos o mercado do souvenir, em que trabalhamos de uma forma acutilante para o turismo, com peças alusivas a diferentes cidades do país e do mundo, depois temos a área da restauração, a quem fornecemos os nossos talheres, sendo que temos cada vez mais steak houses a procurar os nossos artigos, como as facas de serra, por causa do poder de corte, tolerância na ida à maquina de lavar e durabilidade”, avançou, frisando que, além destes, claro que também se vende a partir de lojas físicas e na internet, onde se pode criar a própria navalha personalizada ou comprar até mesmo as mais simplistas. À empresa, onde trabalham 20 pessoas, maioritariamente de Palaçoulo, as matérias-primas chegam da Alemanha, Espanha e Suécia, no caso do aço, e, em termos de madeira, maioritariamente da França. O que é nosso, tal como em algumas linhas de facas, com composições gráficas que fazem alusão à região, já se começa a utilizar, em termos de matéria-prima. “No sentido de diferenciar o produto e dar-lhe uma identidade diferente, temos usado o carrasco e o freixo. Há clientes que nos exigem cunho local e socorremo-nos destas madeiras”, assumiu . Na empresa acaba de se abrir um espaço museológico, já que as solicitações de visitas guiadas eram muitas. Não era opção enveredar por um turismo industrial mas fazia sentido “partilhar a história”. “Era uma obrigação”, terminou Alberto Martins, que para o futuro quer, “com muita humildade, continuar a assumir a capacidade de diferenciação”.

Barricas que correm mundo

É também em Palaçoulo que se situa a empresa familiar JM Gonçalves. Com 52 trabalhadores, de Palaçoulo, do resto do concelho e da região, bem como estrangeiros, dedica-se à produção de barricas e alternativos e tem cerca de 100 anos de actividade. Líder no mercado na Península Ibérica, no seu sector, exporta, maioritariamente, a sua produção para grande parte dos países produtores vitivinícolas, como sendo França, Espanha e Estados Unidos da América. “Para Portugal também vendemos, mas representa cerca de 11% da nossa produção”, esclareceu Sérgio Gonçalves, um dos seis sócios-gerentes e filho do fundador. Afirmando que a empresa “é a maior do concelho e aquela que mais postos de trabalho cria”, assegura que é “reconhecida mundialmente” e, claro, Portugal não a esquece. “Este ano fomos premiados com o Coteq-BPI”, vincou, afirmando que tudo isto se deve à “capacidade produtiva, grande solidez financeira e excelentes recursos humanos”. Anualmente, a empresa produz entre 15 a 20 mil barricas. Em média, são 50 barricas diárias. Produzir mais ou produzir menos depende dos modelos a executar e das madeiras, já que há algumas que secam mais rápido que outras. “A barrica em si é um produto que, mecanicamente, é fabricado com base numa norma, em que o que difere são os modelos, capacidades e madeira utilizada, sendo que ele não evoluiu muito. Aquilo que evoluiu foram as técnicas de fabrico”, esclareceu. No futuro, deverão ser criados mais postos de trabalho, numa aposta em recursos humanos qualificados. A ideia é conseguir mais “eficiência produtiva”.

O ícone da religiosidade

Foi por ordem de D. João III que Miranda viu nascer a concatedral. A Antiga Sé está classificada como “Monumento Nacional de Portugal” desde 1910. Foi mandada construir no contexto de uma reorganização político-religiosa, tendo sido iniciada em 1552. Foi concluída no começo do século XVII, mantendo o estatuto de sé episcopal até 1780, ano em que a sede da diocese foi transferida para Bragança. Celina Pinto, directora do Museu da Terra de Miranda, que também tem a seu cargo a concatedral, afirma que este monumento detém um “valioso património arquitectónico e artístico”. É, por exemplo, aqui, neste espaço, que estava, na sacristia, o Calendário da Sé de Miranda. São 12 quadros que representam os 12 meses do ano. Cada figura retrata trabalhos agrícolas e vivências rurais. Após um estudo, tendo-se atribuído as pinturas a Peeter Balten, pintor em Antuérpia, as obras, de 1580, ficaram acessíveis ao público, sendo que até há pouco tempo não o estavam. “Não se sabia o seu valor artístico, e quando se fez o estudo, a obra ganhou uma nova dimensão”, disse a directora. Pensa-se que as obras foram adquiridas ou encomendadas no mercado antuerpiano, por parte do Bispo D. Jerónimo de Menezes, que governou a Diocese de Miranda entre 1581 e 1592. Em termos de guardar relíquias, a concatedral não se ficou só por aqui. Foi na Antiga Sé que também se encontrou, em 2015, um livro único de composições de música renascentista do século XVII, do compositor espanhol Diego de Bruceña. Em 1620 foram impressos 400 exemplares deste livro e o de que foi encontrado é o único que resta, sendo que a obra está agora a ser digitalizada e estudada, numa parceria entre o Museu da Terra de Miranda e a Universidade de Boston. “Este estudo consiste também em torná-lo público. A missão das instituições culturais é salvaguardar o seu património, mas também divulgá-lo e torná-lo acessível”, frisou Celina Pinto, que disse que vai ser criada uma plataforma digital onde o livro vai ficar disponível, permitindo que todos os músicos, a nível nacional, a ele possam aceder e assim o tocar.

40 anos de um museu que espelha

Miranda Criado em 1982, o Museu da Terra de Miranda assume um “papel fundamental”, porque “está inserido numa cidade do Interior e, neste contexto, têm que estar muito próximo das suas comunidades”. Neste momento, fechou portas para obras de remodelação. Quando abrir “será completamente diferente, maior, com outros conteúdos, mais apelativo e mais contemporâneo”. A obra ainda não começou, sendo que o museu já está, pelo menos parte do espólio, no Antigo Paço Episcopal. É aqui que permanecerá até a obra estar acabada. A empreitada surge 40 anos depois da sua criação, o que a directora entende estar errado. “O Interior é sempre esquecido, os investimentos são poucos, por isso é que o museu chegou a esta situação de quase ruptura, no que diz respeito à estrutura do edifício”, frisou, dizendo que “por isso é que esta obra é urgente”. Falta agora a luz verde do Ministério das Finanças. “Estamos todos ansiosos para que a obra inicie e esperemos que isso aconteça, eventualmente, no mês de Setembro”, referiu ainda. A empreitada deve durar cerca de 24 meses. No futuro, no novo museu, haverá outros contextos. Em grande força surgirá o que está relaccionado, por exemplo, com a língua.

Desvendar pedaços de história

O Castelo de Miranda do Douro existe desde finais do século XIII. Foi mandado fundar pelo Rei D. Dinis, na altura de estabelecer as fronteiras da nossa nação, juntamente com outros, nomeadamente o de Vimioso, Bragança e Penas Róias. “Eram locais estratégicos no combate com Espanha”, explicou Mónica Salgado, arqueóloga ao serviço da câmara. Dada a importância, nos últimos tempos, têm sido alvo de trabalhos. A ideia é descobrir pedaços de história e, claro, requalificá-los e torná-los visitáveis. Os trabalhos arqueológicos iniciaram em 2018, sendo que já tinha sido feita uma campanha em 1998, descobrindo-se uma das muralhas de adaptação do castelo à luta com os novos meios de combater, a pirobalística. Já os mais recentes ali feitos colocaram várias outras estruturas visíveis, sobretudo de natureza militar, que vão desde o século XIII ao XVIII. Algumas já foram intervencionadas, nomeadamente a muralha e uma das portas, que já estão visíveis mas não visitáveis, sendo que se estão a fazer obras de requalificação de toda a área. “A ideia agora é recuperar o que se descobriu mas vai demorar algum tempo. Vamos tentar fazer algumas candidaturas e a câmara também está disponível para fazer esse trabalho, sempre com a colaboração da Direção-Geral do Património Cultural”, esclareceu Mónica Salgado. Neste momento, há um campo de trabalhos, começado em 2019, que está a terminar. A arqueóloga, por ele responsável, diz que já consegue perceber por onde passam estruturas como a muralha secundária, a barreira nova e a torre hexagonal. Assim que o campo termine será elaborado um projecto de consolidação e visitação. A ideia é a mesma com tudo que já se descobriu: recuperar e dar a possibilidade, a todos quantos queiram, de visitar.

Arre burro

Não se fala de Miranda sem se falar de burros. Foi aqui que se conservou uma das últimas variedades autóctones de asininos no território nacional: a Raça Asinina de Miranda. E o presente, perante uma raça que esteve em risco, é bem risonho, admite Miguel Nóvoa, secretário técnico da Raça Asinina de Miranda e membro da direcção da Associação Para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA). “Em 2005 teríamos, em todo o concelho, 1 a 2 nascimentos por ano. Neste momento temos cerca de 30”, explicou, reportando-se a 2005 porque esta é a data de fundação do Centro de Valorização do Burro de Miranda, instalado na aldeia de Atenor, e, por isso, foi quando se iniciaram os trabalhos de preservação da raça, que nos deixam nos números de hoje. No centro vivem 60 burros, mas, além dele, cuja missão é ajudar a que o efectivo aumente e receber as pessoas que queiram conhecer os animais, há mais espaços ligados à raça. É o caso do Centro de Acolhimento do Burro, criado em 2011, com sede em Pena Branca. Tem um propósito diferente mas igualmente importante. “Não poderá haver uma verdadeira raça autóctone se não nos preocuparmos com os animais de mais idade. O que fazer a estes animais em fim de vida? Daí surgiu a ideia deste centro, que vai acolhendo animais com alguma idade ou animais de pessoas que não os podem manter”, explicou Miguel Nóvoa. O Centro de Atividades Lúdico-Pedagógicas do Burro de Miranda, no concelho de Vimioso, é outro dos espaços. Tem como objectivo desenvolver actividades instrutivas na companhia dos burros, sendo que ali residem oito.

Um traje de tradições que nasce do burel

A Capa de Honras mirandesa é umas das marcas da região. Noutros tempos tinha como objectivo proteger os pastores do frio. Agora é utilizada em cerimónias protocolares ou actos de importância relevante. Esta peça, de grande valor etnográfico, é feita em lã, que passa por um conjunto de processos de transformação. É com este tecido, o burel, que, ainda hoje em dia, alguns artesãos constroem as capas. É o caso de Palmira Falcão. Com 65 anos, natural de Sendim, trabalha com burel de 1995. A arte surgiu quando Miranda celebrou 450 anos de cidade, já que teve que fazer um fato para o filho participar num desfile e “correu bem”. Além das capas de honras, faz muitas outras coisas com o burel, nomeadamente outras capas para senhoras, fatos de pauliteiros, carteiras, carpetes, enfim, “todo o tipo de trabalhos que as pessoas vão pedindo”, sendo que o que mais é solicitado são mesmo as capas de honras. E fazê-las não, propriamente, pêra doce. “Por duas pessoas, a sua confecção pode demorar uma semana ou mais”, referiu Palmira Falcão. Além de ser o que mais vende, as capas de honras são também o produto mais caro. Cada uma pode custar 800 ou mais euros. As carpetes também não são propriamente baratas, dependendo do tamanho. Ainda assim, “são uma peça única, muito bonita”. Para ter o que confeccionar e vender, a artesã manda vir o burel da zona da Serra da Estrela, já que “só ali é que, hoje em dia, o há”. “Antigamente fazia-se aqui, em Miranda. Fiávamos a lã, tecíamos havia muito gado... mas ali começaram a ter máquinas melhores para fazer o tratamento do tecido e agora é ali que ainda se continua a fazer”, recordou.

De Miranda do Douro para a ribalta do atletismo

Ricardo Ribas é uma referência do desporto distrital e nacional. O atleta natural da aldeia de Malhadas, em Miranda do Douro, cedo deu mostras da sua aptidão para o atletismo. Ainda muito pequeno, com cinco ou seis anos, sempre a acompanhar os pais nas lides agrícolas e a pastorear os animais pelo campo, gostava de correr e sonhava em participar nos Jogos Olímpicos, um sonho que concretizou com 38 anos. Mas já lá vamos. Foi o Desporto Escolar a porta de entrada no atletismo e no Ginásio Clube de Bragança (GCB), em 1994, onde começou a trilhar um caminho de sucesso. Na altura tinha 12 anos e como referências os atletas Carlos Lopes, os gémeos Castro e Rosa Mota. Com a camisola do GCB foi vice-campeão nacional de juvenis de corta-mato, em Coimbra. Antes, Ribas alcançou o nono lugar no mundial na China e depois participou nos Jogos da FISEC em Inglaterra. “O Ginásio Clube de Bragança foi campeão e fomos apurados para ir à China. Sabia que dificilmente os meus pais me deixavam ir, então falsifiquei as assinaturas e quando deram por ela já estava na China. Se ficaram chateados? Na altura sim, mas passou rápido”, recordou. Ricardo Ribas manteve o seu espírito de aventureiro e sabia que para chegar a outros patamares tinha que arriscar. Assim fez. Rumou a Lisboa, sem nada dizer aos pais, arranjou trabalho num restaurante e ingressou no Maratona Clube de Portugal, tinha na altura 17 anos. “Se ficasse em Miranda do Douro não conseguia chegar onde cheguei. Em Lisboa, durante sete anos, conciliei o trabalho num restaurante com o atletismo. Não foi fácil, mas valeu a pena”. A partir daí, Ribas acumulou títulos. Em 2002, sagrou- -se campeão nacional de 5000 metros, mas foi no corta-mato que se destacou. Foi campeão nacional de crosse curto em 2005 e 2007. No Europeu participou sete vezes, conseguiu um nono lugar em 2007, e seis vezes no mundial. Mais tarde, o agora treinador apostou na maratona. Já ao serviço do Benfica ajudou os encarnados a conquistar dois títulos colectivos, em corta-mato, em 2013 e 2015. Mas, a concretização do sonho de criança aconteceu aos 38 anos. Ribas bateu o seu recorde pessoal na maratona de Dusseldorf, na Alemanha, que lhe garantiu a presença, em 2016, nos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, no Brasil. “É a cereja no topo do bolo. Ainda é mais saboroso quando chega numa altura da tua carreira, tinha 38 anos, em pouca gente acreditava que conseguia chegar lá. Ser atleta olímpico é um carimbo para a vida toda. Há atletas que conseguiram grandes resultados e nunca conseguiram ir aos Jogos Olímpicos. É algo que me deixa orgulhoso e quando falo disso fico com pele de galinha”. Entretanto, Ricardo Ribas representou o SC Braga, em 2018 sagrou-se campeão universitário de crosse curto e terminou a carreira em 2021, aos 43 anos, no clube onde tudo começou, no Ginásio Clube de Bragança. Ribas direcciona agora as atenções para a área do treino e para o clube que fundou em 2019, o Team El Comandante”, que conta com mais de 100 atletas.

Susana Madureira

A presidente

Nome: Helena Maria da Silva Ventura Barril
Idade: 52 anos
Tempo de Mandato: 10 meses
Profissão: Funcionária Pública
Porquê é que decidiu dedicar-se à política?

A decisão de me dedicar à politica não é de agora. Aceitei este desafio porque acreditei, à data, e continuo a acreditar neste projecto. Estou empenhada na melhoria deste concelho, tenho a força de vontade e estou imbuída do espirito de querer melhorar esta terra e de melhorar a qualidade de vida desta maravilhosa população. Amo este território e acredito no potencial do mesmo, nas nossas gentes. Nesta Terra de Miranda temos qualidades únicas e diversificadas, somos diversos diamantes brutos que apenas necessitam de lapidação.

Como é ser presidente da Câmara Municipal de Miranda do Douro?

É ser eu, pessoa dinâmica, tentando estar presente, gerindo o tempo de forma quase cronometrada para ir correspondendo aos convites que me vão dirigindo. Não é uma vida tranquila, exige-me muito, mas com a qual tenho uma total conexão. O exercício deste cargo permite-me uma grande proximidade com as minhas gentes, os nossos velhos. Tenho a meu cargo, por escolha pessoal, o pelouro da cultura e em consequência, temos criado uma nova dinâmica cultural, com exibições dos Pauliteiros de Miranda, com cinema, com teatro, com espectáculos musicais. E tudo isto trouxe uma mudança na minha vida, mas com uma satisfação enorme e total empenho. Efectivamente, gosto do que faço. Direi mais, acho que nasci para exercer este cargo.

Quais são os maiores desafios como autarca?

É cumprir os compromissos que assumi durante a campanha e cumpri-los sem abdicar dos valores de integridade que pautam a minha vida pessoal. Há obras estruturantes para o concelho que quero concretizar, como é a construção do novo matadouro e a requalificação do rio Fresno e da sua envolvente. Outra obra imprescindível é a renovação das condutas da água, para que consigamos colmatar as significativas perdas que temos. Teremos de tornar o nosso concelho mais eficiente, quer a nível das águas e saneamentos, como ao nível da iluminação. Teremos de executar alterações estruturais nestes sectores, informatizando-os. Como é público, temos perdas na distribuição da água, na ordem dos 70%, ou seja, não estamos a ser eficazes na sua distribuição. Vou deixar a nota, que este sector é e será um desafio muito grande, mas já estamos a trabalhar para o reformar estruturalmente e seremos eficientes e eficazes, o que nos trará uma menor despesa pública. Somos zelosos com os “dinheiros públicos” e vamos mostra-lo. Temos como meta de atingir neste mandato a requalificação dos edifícios públicos, mormente, o próprio edifício da câmara, a Casa da Cultura, a Biblioteca Municipal, o edifício da Divisão de Obras, o edifício da Divisão da Cultura, edificados que recebemos muito degradados. E quero continuar com todo o empenho na promoção do concelho, através do nosso riquíssimo património cultural, levando os Pauliteiros de Miranda aos quatro cantos do Mundo, promovendo a Língua Mirandesa, apoiando a publicação de livros em Mirandês, apoiando as associações de produtores das raças autoctones, associações de agricultores, as cooperativas e as associações culturais. Temos conhecimento profundo do nosso território, temos força de vontade e a consciência das necessidades das nossas populações. Vamos ao trabalho!

Jornalista: Carina Alves

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