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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Definitivamente, a competência não tem mesmo sexo

Por: António Pires 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Numa sociedade culturalmente machista, como o é a nossa, há determinadas “conquistas” que se têm vindo a fazer paulatinamente. Muitos daqueles que, até há bem pouco tempo, achavam que “o lugar da mulher era na cozinha”, conseguiram libertar-se (para melhorar, vamos sempre a tempo, como diz o povo) da ditadura do preconceito e das ridículas “verdades” tidas por universais.
Na sequência duma publicação a propósito deste mesmo assunto, aqui feita no Memórias, na semana passada, comentei, com base em argumentos que julgo irrefutáveis, que, ao contrário do que está “institucionalizado”, o Sexo Forte é a Mulher, e não o Homem.
No passado sábado, dia 10, fui ver o meu Grupo Desportivo de Bragança (GDB), para a Taça de Portugal, competição em que, se não estou em erro, há 5/6 anos não íamos além da primeira eliminatória. Mesmo que não houvesse outra razão, esta da “mala pata” seria uma das que justificavam ir ao estádio apoiar o clube de coração.
À entrada, de caras para o relvado, apercebi-me, com agradável surpresa e satisfação, que o jogo ia ser apitado por um trio feminino, da Associação de Arbitragem do Porto. A Árbitra, de nome Sara Alves, era auxiliada por Paula Pereira e Bibiana Soares.
 Fiquei de tal forma maravilhado com o trabalho das jovens, que, para o qualificar, só poderei usar o adjectivo “irrepreensível”. Tecnicamente do melhor que vi até hoje – o termo de comparação serve também para os jogos da primeira liga -, esta árbitra (o mérito é, naturalmente, repartido) deu uma verdadeira lição de bem apitar e de pedagogia, demostrando que a Autoridade e o Respeito não se exigem nem se reclamam; conquistam-se pelo exemplo.
 Ainda que tivesse havido, numa ou noutra situação, algum lance passível de sanção disciplinar, a jovem Sara não exibiu um único cartão. Esta faceta da não amostragem de cartões, ao contrário do que defendem esses grandes catedráticos da bola, que pululam fastidiosamente nas TV´s, é a prova evidente de que é possível controlar disciplinarmente um jogo, sem o recurso à “medida mais gravosa”.
A árbitra Sara Alves dirigiu o jogo com muito nível e personalidade, com o à vontade de quem bebe um fino numa esplanada. Sempre que foi necessário dar “um puxão de orelhas” aos jogadores (a rapaziada, dum lado e do outro, portou-se bem), fê-lo não com aquele ar intimidatório e arrogante, muito comum nos seus colegas “primodivisionários”, mas com classe, sempre com um sorriso contagiante e bem - disposta.
No final do jogo, senti uma vontade enorme de dar um xi – coração arrotchado a essas três miúdas, por terem dignificado a Mulher e a instituição Arbitragem, tão pouco credível, aos olhos dos adeptos de futebol. Como, naturalmente, não tive oportunidade de o fazer, presto-lhes, desta forma, o meu singelo tributo.
Quando, há meia dúzia de anos, se começou a falar na possibilidade das mulheres virem a apitar jogos de futebol, cheguei a perguntar aos meus amigos, em tom de brincadeira, se aqueles adeptos cuja sanidade mental é duvidosa, e em caso de se sentirem “roubados”, também as vão “brindar” com aqueles impropérios escabrosos. Como, até ao jogo do Bragança – Monção, não tinha tido a possibilidade de satisfazer a minha dúvida, eis que, da bancada central do meu clube, veio a desconcertante resposta. Sim, infelizmente há uma espécie de gente capaz de dizer às Saras, às Paulas e às Bibianas (que poderiam ser suas filhas), “ ó sua p…, vai p´ra casa  lavar a louça!”.
Confesso que me deram náuseas. A vergonha alheia apoderou-se de mim, e disse para comigo: “não, isto não está a acontecer!”. Mas estava. Contei até dez, respirei fundo e lá me acalmei, com o golo da vitória, festejado efusivamente.

António Pires

António Pires
, natural de Vale de Frades/S. Joanico, Vimioso.
Residente em Bragança.
Liceu Nacional de Bragança, FLUP, DRAPN.

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