Há geografias que não se explicam com mapas, fronteiras ou linhas políticas. Há territórios cuja verdadeira natureza vive num entrelaçar de histórias, de afetos e de caminhos que se cruzam há séculos. Bragança e Zamora são um desses casos raros. Duas províncias separadas por uma linha imaginária, mas unidas por uma memória comum, por uma forma semelhante de olhar o mundo e por necessidades que são de um lado e do outro da raia.
A ligação cultural entre Bragança e Zamora não é um projeto a construir, é uma realidade ancestral que precisa de ser tratada com a dignidade que merece. Partilhamos tradições, sonoridades, ritmos e expressões que sobreviveram ao tempo. Desde a música e dança tradicional ao património imaterial que atravessa o Planalto Mirandês e se estende pelos montes de Aliste e Sayago. Partilhamos também uma relação idêntica com a terra, com o clima, com a ruralidade, com o sentido de comunidade. A cultura sempre soube o que a política demorou a compreender. Aqui, a fronteira nunca separou verdadeiramente nada, apenas marcou o ponto onde começava a continuidade.
Mas a ligação não é só cultural, é física e emocional. São caminhos antigos de comércio e proximidade, são famílias divididas em papel mas não em vida, são laços que nunca dependeram de autorizações formais. Quem vive em Bragança olha para Zamora com um sentimento de familiaridade, não de distância. E quem vive em Zamora reconhece, no território brigantino, um prolongamento natural da sua própria paisagem humana. Esse espelho mútuo cria um tipo de relação que poucas regiões fronteiriças conseguem reivindicar com tamanha autenticidade.
É por isso que a cooperação entre Bragança e Zamora não deve ser vista como um gesto protocolar, mas como um imperativo estratégico. O interior de Portugal e o noroeste de Castela e Leão enfrentam desafios semelhantes, despovoamento, envelhecimento, perda de serviços, marginalização política, sensação de abandono por parte dos centros de decisão nacionais. Se os problemas são paralelos, por que não haver respostas paralelas? Se as necessidades convergem, por que haver políticas que permaneçam isoladas?
Reforçar os laços entre Bragança e Zamora significa abrir portas onde antes existiam muros invisíveis. Significa apostar em mobilidade transfronteiriça, em infraestruturas que liguem as duas regiões não apenas pela estrada, mas pelo conhecimento, pela economia, pela cultura e pela inovação. Significa reconhecer que só através da complementaridade é possível desenhar um futuro que rompa com décadas de atraso e subfinanciamento. Uma Bragança isolada perde força, uma Zamora isolada perde horizonte. Mas unidas, projetam uma escala territorial capaz de influenciar decisões, atrair investimento e criar massa crítica.
Esta ligação é, também, emocional. Representa uma esperança partilhada, uma vontade conjunta de provar que o interior não é sinónimo de esquecimento. Quando Bragança olha para Zamora, vê alguém que compreende a sua luta, que sente na pele os mesmos silêncios e as mesmas urgências. E quando Zamora olha para Bragança, encontra uma parceria com ambição, com identidade forte, com capacidade de mobilização. Há uma empatia natural que pode, e deve, transformar-se em estratégia.
Esta, desejada, tem de ser um motor de novos horizontes. Dará espaço a políticas que ultrapassam fronteiras, a iniciativas culturais que revelem o que sempre nos uniu, a projetos económicos que beneficiem ambos os lados, a turismo, a ciência, a educação, a preservação do património e da paisagem. Dará ambição. Dará voz. Dará escala. Dará futuro.
Bragança e Zamora têm tudo a ganhar e nada a perder com esta aproximação renovada. O que está em causa é a criação de novas pontes, e o reconhecimento de que essas pontes sempre existiram, só precisam de ser iluminadas. O interior é obrigado a reinventar-se para sobreviver, esta ligação pode transformar-se na chave de uma nova era… mais forte, mais ampla e mais confiante.
No fim, talvez o mais importante seja perceber que a raia não divide, aproxima e multiplica. Juntos, Bragança e Zamora podem fazer do que antes era fronteira um espaço de oportunidade, de pertença e de futuro.
Janeiro de 2026

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