Número total de visualizações do Blogue

Pesquisar neste blogue

Aderir a este Blogue

Sobre o Blogue

SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Em dia de eleições… Mais umas breves reflexões sobre Mirandela (e Sesulfe...)

Por: Rui Rendeiro Sousa
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 Para quem conheça os textos das Inquirições Afonsinas relativos ao território do actual distrito de Bragança, saberá que a expressão «fecit malum» («fez mal») abunda em diversos testemunhos, nos diversos Julgados de meados do século XIII. Não é algo exclusivo dos depoimentos relativos a Mirandela... Não equivalendo, naturalmente, a «destruições», caso contrário muitas povoações teriam, então, sido «destruídas»… E, para quem conheça, minimamente, o desenrolar da História da região bragançana, saberá que os reis de Portugal procuraram, desde D. Afonso Henriques até D. Sancho II, “butare” as mãos à referida região, com relativo insucesso. O primeiro monarca a, efectivamente, «lançar a rede» da centralização régia, foi D. Afonso III. Por isso, entre outras medidas, foram decretadas as ditas Inquirições… 

As quais não passaram de inquéritos presenciais, feitos aos habitantes das diversas paróquias então existentes. Isto é, o que consta das Inquirições são informações provenientes de testemunhos do Povo, ou dos clérigos de cada paróquia, inúmeras vezes manipuladas por quem as registou. Afinal, o interesse de D. Afonso III era saber quais os direitos régios que havia na região, bem como saber que eram os seus «oponentes» relativamente a esses direitos. O problema maior residia no facto de a região bragançana ser, nessa época e por razões históricas, detida pela Nobreza e pelo Clero, quer através de Igrejas, quer por via de Ordens Religiosas, particularmente os Beneditinos, os Templários e os Hospitalários. 

De cada vez que era atribuído um foral, ou intituída uma povoação, era norma estabelecer os seus limites territoriais. Limites esses que colidiam com a histórica posse de Cavaleiros, Mosteiros e Ordens Religioso-Militares, maioritariamente de origem Leonesa. Basicamente, os reis queriam «surripiar» aquilo que, em termos efectivos, não era deles. Por isso, até D. Dinis, não abundam as atribuições de forais à região… Forais que, em inúmeros casos, até precisavam da concordância dos Bragançãos… E diziam os reis que os «seus homens» deveriam tomar as povoações do seu limite territorial, desrespeitando posses antigas, e esperando que os seus efectivos possuidores não retaliassem. Assim aconteceu em bastantes casos, nomeadamente no que respeita à tentativa de posse de Sesulfe pelos «homens de Mirandela»…

E, à semelhança de muitos outros casos, noutras áreas que não a de Mirandela, lá iam os «homens do rei» tentar «abarbatar» o que dono tinha. O que foi o caso, entre muitos outros, de Sesulfe… Sesulfe que, diz o Povo nas Inquirições, foi «filhado» pelo Mosteiro de Castro de Avelãs. O mesmo Povo que, por exemplo, também diz que Vale de Asnes também tinha sido «filhado» pelo «último Braganção», ou que Cortiços e Cernadela também tinham sido «filhados» pelos descendentes do construtor do Castelo de Algoso… O problema reside na inverdade de tais informações. O que saberia o Povo acerca das anteriores doações constantes nas chancelarias régias?… O que saberia o Povo sobre a doação que tinha sido feita, em finais do século XII, a um Braganção? O que saberia o Povo da doação que esse Braganção fez, de Sesulfe, ao Mosteiro de Castro de Avelãs?… Era mais fácil, perante a «ameaça» das «espadas do rei», afirmar que Sesulfe era reguenga e que os «malvados» frades beneditinos de Castro de Avelãs a tinham tomado pela força… 

Mais fácil sendo afirmar que D. Pedro Garcia de Bragança tinha «feito mal» aos «homens de Mirandela» que, abusivamente, tinham tentado tomar o que deles não era, ou seja, Sesulfe. Pois claro que deve ter feito, enxotando-os de Sesulfe, quando os ditos «homens de Mirandela» tentaram «surripiar» o que deles não era… Não equivalendo isso a qualquer fictícia «destruição» do que quer que seja. As «destruições», que não a de Mirandela, a tê-las havido, ocorreram em episódios bastante posteriores. Mas já lá irei, futuramente… Para já, mantenhamo-nos em D. Pedro Garcia de Bragança, o tal que «fez mal» aos «homens de Mirandela»… Sobre o qual foi por aqui afirmado que teria «destruído» Mirandela por causa da carta de foro que D. Afonso III outorgou à mesma Mirandela. Ora… A dita carta de foro foi atribuída no ano de 1250. E só no caso de D. Pedro Garcia ter ressuscitado, é que terá reagido à atribuição da dita carta de foro! Porque D. Pedro Garcia está atestado, na documentação, até 1225, sabendo-se que terá morrido antes de 1230! Vinte anos antes da outorga da carta de foro por D. Afonso III !!! Há uma grande distância entre ficção e realidade…

E, antes de, numa próxima publicação, chegar à peculiar ligação de D. Dinis com Mirandela, deixo umas últimas notas sobre o tal de D. Pedro Garcia de Bragança, aquele que «fez mal», legitimamente, aos «homens de Mirandela», daí se tendo deduzido, erradamente, conforme o comprovará documentação posterior, que Mirandela foi «destruída»… Sem este D. Pedro Garcia de Bragança, para lá de outros factos, não teríamos tido… a Batalha de Aljubarrota! Porque o “rapaze, q’era malinu’e, fêzu um raparigu na própia irmã”! Eram tempos outros, os medievais… E o “raparigu’e”, que também teve propriedades na área de Mirandela, por herança de ambos os Bragançãos pais, casaria e teria uma filha. A qual, Bragançã por dupla via, posteriormente, também casaria com… um primo afastado Braganção. O qual era filho do «último Braganção» que já por aqui venho trazendo. E, sempre por via feminina, seriam os antepassados da célebre Rainha D. Leonor Teles e, consequentemente, de D. Beatriz, a sua filha com o rei D. Fernando. Ou seja, D. Beatriz, a que casaria com D. João I de Castela, e daria origem à Crise de 1383-85 e à dita Batalha de Aljubarrota, também por via dupla carregava sangue Braganção, sem o qual não teria existido… Curiosidades sobre umas terras sem cujos genes mais de metade da História de Portugal não teria ocorrido, tal como a conhecemos… “Que mai fai”?... 

(Foto: Vagamundos)


Rui Rendeiro Sousa
– Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer. 
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas. 
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana. 
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros. 
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

Sem comentários:

Enviar um comentário