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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Em dia de reflexão… Breves reflexões sobre Mirandela (e Cedães…)

Por: Rui Rendeiro Sousa
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 A História, como qualquer ciência, deverá ser pautada pelo rigor, desprovida de quaisquer considerações «românticas». As interpretações ou, até, as suposições, são perfeitamente entendíveis, mas sempre dentro de uma lógica que não adultere a documentação disponível ou, mais grave ainda, o contido nos textos. As anteriormente referidas considerações «românticas» poderão, em inúmeros casos, conduzir a ilogismos e a induções em erro, o que deturpa os fundamentos da História. 

A primeira referência documental existente nas chancelarias régias acerca da existência de uma povoação designada como «Mirandelam», surge há quase 830 anos, através de uma doação aí feita por D. Sancho I. Sabe-se que a referida povoação, integrante das medievais Terras de Ledra, não se situava na sua actual localização. Isso só aconteceria cerca de 85 anos após esta primeira anotação documental, já no reinado do bisneto de D. Sancho I. Mas já lá iremos…

Ainda antes dessa mudança de local, ocorre o que é vulgarmente chamado de «Foral de D. Afonso III», outorgado a Mirandela (ainda na sua anterior localização). Para os que conheçam o documento, saberão que não se trata, propriamente, de um foral, mas sim de uma «carta de foro» ou, como também surge designado, um «foral breve». De tal forma que o «Foral Novo», outorgado por D. Manuel, já no século XVI, elaborado com o objectivo de actualizar forais antigos, nem lhe faz referência, apenas considerando o atribuído por D. Dinis, esse, sim, um efectivo foral. 

Todavia, antes do foral dionisino, através das Inquirições Afonsinas de 1258, sabe-se que Mirandela, não obstante estar encartada, nela eram mantidas propriedades que não pagavam foro, particularmente as que eram pertença dos Bragançãos, assim como as que eram pertença dos descendentes do construtor do… Castelo de Algoso. Bragançãos aos quais pertenceu uma figura, de seu nome Pedro Garcia de Bragança. Figura essa que era filho do epitetado como «Ledrão», bem como neto de uma outra proeminente figura que também surge designada da mesma forma, ou seja, como «Ledrão». Em circunstância alguma Pedro Garcia de Bragança surge mencionado, em documento algum, nomeadamente em nobiliários ou nos documentos régios nos quais foi testemunha, até 1225, como «Ledrão»… 

E aqui é trazido Pedro Garcia de Bragança porque o insigne Padre Ernesto de Sales, no seu tempo, decidiu interpretar uma passagem das referidas inquirições como tendo sido esse Braganção o autor de uma pretensa destruição de Mirandela. Todavia, o que o texto diz é que «D. Pedro Garcia de Bragança fez mal a homens de Mirandela, porque esses homens exigiam a vila de Sesulfe» («Domnus Petrus Garsie Bragantianus fecit malum hominibus de Mirandela, quare ipsi homines demandabant villam sisulfi»). Deduzir, a partir daqui, que Mirandela foi destruída, «não lembra ao diabo»… Especialmente para quem souber os antecedentes que conduziram a esse «fez mal a homens de Mirandela», bem como os acontecimentos posteriores. E quais foram esses antecedentes?…

Os grandes e efectivos senhores das Terras de Ledra eram os Bragançãos (desde os tempos de Fernão Mendes, o Bravo). Por isso o seu filho, bem como um seu neto, ficaram conhecidos como «Ledrão». O que não impedia que outros descendentes Bragançãos também tivessem tido direito a herança e direitos por Terras de Ledra. Ou seja, os tios e primos do dito Pedro Garcia de Bragança, também eram donos das Terras de Ledra. Assim o atestam as próprias Inquirições, bem como o Cartório da Ordem do Hospital ou o Tombo do Mosteiro de Castro de Avelãs, instituições às quais os referidos Bragançãos fizeram avultadas doações nas ditas Terras de Ledra. Situação que se aplicava à referida Sesulfe, que os «homens de Mirandela» exigiam. Isto é, os «homens de Mirandela» exigiam aquilo que, para lá de não ser deles, tinha sido, pelo menos desde finais do século XII, de um importante Braganção (figura de uma relevância extrema e que, num qualquer dia aqui trarei)! Personagem esse, primo do dito Pedro Garcia de Bragança, que doaria Sesulfe ao Mosteiro de Castro de Avelãs… Estão a «ver o filme»?…

E, para isto não se prolongar muito, que Mirandela, Cedães, e as «suas destruições», têm muito que se lhe diga, já cá virei, posteriormente, com mais reflexões… A bem da verdade histórica...

(Foto: Joana Martins)


Rui Rendeiro Sousa
– Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer. 
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas. 
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana. 
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros. 
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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