(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Inúmeras vezes me deparo com a expressão «tenho imenso orgulho em ser trasmontano». Que parece apenas servir quando um qualquer cantor pimba ou um «comentadeiro/paineleiro» nos chama de «trauliteiros», e vem meio-mundo indignado a «malhar» no teclado. Não duvido que muitos tenham esse orgulho, serei um deles, e procuro expressá-lo de todas as formas, as possíveis, e as impossíveis. Já nos idos tempos de «estudantezeco» na capital, à custa de “m’ingaliare c’um qualquera que mangasse co as nhas terras’e”, ganhei o honroso prémio de ser tratado pelos meus comparsas (e não comparsas) por um «Ó Trasmontano!». “Caralhitchas’e, éis num nu sabium’e, mas ficaba tchêu de proa!”…
Porque, de facto, foi-se desenhando, neste país, uma imagem estereotipada de Trás-os-Montes, as «terras de trás-do-sol-posto», como lhes chamavam os tais de comparsas, bem como dos seus habitantes. Assim, de repente, e de “córe”, já no século XVII, um ilustre investigador que a estas terras veio, epitetava os nossos antepassados como «bárbaros». Forma de estar que terá dado jeito, quando os nossos vizinhos «espanholicos» decidiram invadir-nos, na segunda metade do século XVIII, que origem daria à célebre «Guerra do Mirandum». O objectivo dos referidos «espanholicos» era, porém, tomar a cidade do Porto, para aprisionar barcos e comerciante ingleses. Todavia, deram-se mal ao atravessar estas terras. Asseguro-vos que é delicioso ler a imensa documentação das altas patentes militares «espanholicas» da época, as quais, dado o carácter aguerrido dos nossos antepassados, os compararam aos «índios da América», pela resistência que ofereceram. E nunca mais houve invasões pelo distrito de Bragança!
No entanto, em finais do século XVIII, um ilustre trasmontano, corregedor de uma das nossas comarcas, fazia um retrato pouco abonatório do nosso Povo. Algo repetido, já no século XIX, por outro ilustre Governador Civil. E, de igual forma, pelo nosso Guerra Junqueiro, que nos deixou o sublime «Pátria», onde, entre outras magníficas tiradas, nos legou isto:
«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom».
E, já no século XX, o grande Miguel Torga, que escreveu muito mais do que o «Reino Maravilhoso», também nos deixou como herança, num dos seus «Diários»:
«É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados».
Em simultâneo me lembrando do Nobel Saramago: «Com três batatas no prato, futebol aos domingos, e feriados que calhem em dia de-semana (com ponte, se possível), temos o português feliz». Ou, entre outros que aqui poderia trazer, recorrendo a um escritor pouco conhecido da maioria, mas um grande lutador dos inícios do século XX, Manuel Laranjeira: «Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa»…
Entretanto, devido a algumas funções que exerci, tive de lidar com diversa gente do chamado «arco governativo». Três dessas pessoas já as conhecia antes de desenvolverem essas funções. Uma delas, dir-me-ia, um dia, a propósito da minha luta por Trás-os-Montes, mais ou menos isto: «Vocês, no distrito de Bragança, vivem numa espécie de autofagia. Para lá disso, são uns canibais: comem-se uns aos outros, cada um tratando da sua quintinha». Fiquei a pensar nessa visão, vinda de uma pessoa de fora… «É assim que nos vêem?» - pensei eu...
Até que, um outro, numa outra ocasião, a propósito de recordarmos «velhos tempos», depois das iniciais saudações, me perguntou: «Tu tens a certeza de que és mesmo trasmontano?». Perante o meu ar de espanto, questionando-o sobre as razões para tal «espatafúrdia» pergunta, me retorquiu:
«Para lá da incursão que fiz contigo às tuas terras, não conhecia Trás-os-Montes nem trasmontanos. E a ideia que sempre tive, até pela tua postura, é que eram semelhantes aos irredutíveis gauleses. Embora, pela capital, houvesse dois tipos de trasmontanos: os que se envergonhavam da sua naturalidade, até a renegando; e os que exaltavam essa naturalidade, não se cansando de falar de alheiras, salpicões, pão e demais coisas boas trasmontanas. Até que tive de mudar essa visão… A primeira vez que tive de ir ao teu distrito em visita oficial, precavi-me, levando uma comitiva maior do que o habitual, não fosse o diabo tecê-las. Afinal, noutros distritos, já tinha sido vaiado, apupado, insultado e, até, ameaçado, coisas próprias de quem tem funções governativas. E até fiquei meio receoso com essa primeira incursão às terras dos irredutíveis… Percebi, no entanto, o contrário. Custa-me dizer-te isto, mas já percorri todos os distritos e ilhas, e ainda não encontrei gente tão bajuladora como a do distrito de Bragança. Mesmo em municípios que não são da minha «cor»! Não que seja mal tratado noutros distritos, mas no teu, sou tratado como um rei, que não sou, e a monarquia já terminou há bem mais de um século. E, ao invés de legítimos protestos ou reclamações, o que mais recebi foram beija-mãos, lambe-botas, para não dizer outra coisa… E o que mais ouvi foi um “veja lá, senhor doutor, o que pode fazer por nós”, “tome lá umas alheirinhas, que não encontra melhor do que estas”, “não se esqueça destas terras, senhor doutor”, “tem de levar um pãozinho do nosso”… Dão-me o pão e depois parecem ficar à espera, em troca, de receber umas migalhas. Digo-te que não há nenhum distrito do qual regresse com a mala tão cheia. O que estranho é, porque até são ditos como a região mais pobre do país, mas a sensação com que fiquei é que são a mais rica, parecendo estar tudo bem, tantas as bajulações e os agradecimentos. Onde está o carácter que eu julgava que tinham?»…
E já obtive outras visões semelhantes de «gente de fora». Também já obtive a mesmíssima visão de gente de dentro que foi para fora e não mais voltou. Parece que as sábias palavras dos trasmontanos Guerra Junqueiro e Miguel Torga se mantêm actuais…
Deixei isto para quem quiser reflectir acerca das razões efectivas para o nosso atraso, e da forma como permitimos ser esquecidos, adulterados e vilipendiados… Onde está a raça que obrigou os «espanholicos» a regressarem ao seu reino na «Guerra do Mirandum»?…
Rui Rendeiro Sousa – Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer.
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas.
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana.
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros.
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

Sem comentários:
Enviar um comentário