Portugal é, até ver, um Estado independente que assenta numa Nação com História ímpar e dignidade relevante.
Digo até ver porque não sabemos até quando, face aos ventos da mundialização e da globalização que sopram sobre a Terra ameaçando tudo subverter.
Importa, por isso, relembrar que Portugal é uma das muitas pátrias que são produto do sucesso grandioso que foi a instauração da Igreja Católica Apostólica Romana no alargado espaço político e cultural que hoje, com pleno significado, denominamos Europa.
Processo que se iniciou há dois mil anos atrás com o desmembramento do Império romano às mãos dos povos ditos bárbaros que lhe estremavam as fronteiras e que paulatinamente se reagruparam e radicaram no vasto e diversificado território europeu, orientados pelo processo de cristianização que se iniciava, por regra, com o baptismo dos chefes e se consumava com a conversão das respectivas tribos.
Não é de admirar, por isso, que as diferentes comunidades que sistematicamente se foram consolidando o fizessem em torno dum santo protector, o orago ou padroeiro, à sombra de um templo de maior ou menor dimensão e recebessem o nome do próprio orago associado a uma singularidade topográfica ou a uma vocação agrária mais pronunciada, gerando tradições, usos e costumes peculiares.
São estas as raízes profundas da pátria portuguesa que ainda hoje não só a alimentam como a mantêm de pé. Figurino que se mantem praticamente inalterável em terras rurais do interior português e que os novos tempos irão, certamente, transfigurar.
Deste estado de arte patrimonial e cultural nos dá conta o erudito cónego Silvério Benigno Pires numa obra notável que entendeu intitular Hagiografia Paroquial, a que acrescentou o subtítulo Património Cultural do Concelho de Mirandela.
Trata-se de um livro primorosamente bem escrito, muito bem organizado, profusamente ilustrado, que cuida por igual, embora separadamente, de todas as 102 povoações do concelho de Mirandela, destacando a história do seu orago, o seu património edificado em templos e monumentos, os factos históricos relevantes e a heráldica subjacente, as tradições, os usos, lendas e costumes que as caracterizam e personalizam. Narrativa enriquecida com transcrições ajustadas das memórias paroquiais para cada caso e citações consentâneas dos textos sagrados.
São 102 berços telúricos, patrimoniais, culturais e afectivos, pulsantes de história, que durante séculos, senão milénios, embalaram milhares de almas transmontanas, que Silvério Benigno Pires acorda do esquecimento e ilumina com a luz do futuro.
De salientar, por isso mesmo, a oportunidade instante deste precioso inventário religioso, patrimonial e cultural face às mutações aceleradas que o mundo está a sofrer e que tornam inadiável também que se preserve a memória e a cultura transmontanas, se pretendermos garantir a sua sobrevivência.
Uma obra de referência indispensável em todas as bibliotecas públicas e privadas, nas mesas de trabalho dos autarcas mais lúcidos que se empenhem em políticas de progresso e dignificação das suas autarquias, e dos estudiosos cujo interesse maior recair no conhecimento das gentes e das terras mirandelenses.
Venham mais obras deste teor e talento.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.
Francisco Alves
in:jornalnordeste.com
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(Henrique Martins)
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