Excetuando os rios, ao romper do dia está tudo gelado. Sítios houve onde o termómetro desceu aos 7 negativos. Uma alvéola patina sobre a superfície sólida e embaciada de uma charca. Erva e ramos geados como se estivessem nevados. E nas terras mais altas, do lado dos montes de Leão, a neve propriamente dita. Céu completamente limpo.
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| Poça gelada e erva geada. Foto: Paulo Catry |
Nas veredas e aceiros, os cristais de gelo cresceram em pequenas colunas, gerados da humidade entranhada no solo, que ficam meio escondidos sob uma película superficial de terra. Quando se caminha, o chão cede e estala, como se pisássemos vidro mal moído. De resto, um silêncio de pasmar, madrugadas de ares especados e pássaros calados.
A águia é jovem de meses apenas, mas vigilante. Logo que parei para fotografar, a centenas de metros de distância, levantou voo e desapareceu do outro lado daquela crista. Continuei o meu caminho sem a procurar, mas voltei a encontrá-la mais adiante. Desta vez, mal apareci já a real se afastava, nem deu para uma muito distante fotografia. Não há em todo o mundo animal mais arredio.
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| Não há ave mais distante e arisca do que a águia-real. Foto: Paulo Catry |
(Devia haver uma certificação qualquer para os espaços ditos verdadeiramente selvagens, um rótulo de excelência para viajantes e visitantes – o ícone e o critério seriam esta águia. A região demarcada tem águia-real? Ok, está certificada. Não tem? Nem lobos ao menos? Lamentamos, é terra já muito de gentes, não é suficientemente bravia)
No dia seguinte, mais alto na serra, mais águias. Um casal em voos nupciais. Descida a pique, inversão súbita, subida aproveitando a velocidade ganha na queda livre. As asas não batem, fecham-se na rota descendente, abrem-se ligeiramente na curva cá em baixo e vão semiabertas para cima; antes do topo, fecham-se de novo, mas a águia vai lançada e sobe ainda… Só visto!
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| Nymphalis polychloros. Foto: Paulo Catry |
Hoje os corvos não largavam as águias, procurando debalde que dali se afastassem. Este território ficou livre há um par de anos, entretanto os corvos instalaram-se, mas agora regressaram as águias e, por mais espertos e legítimos ocupantes que sejam, os súbditos vão ter que dar espaço às novas monarcas. Contrariedades da vida.
Foi mais uma visita aos lobos. Ao longo deste fim-de-semana grande percorri demoradamente o coração dos territórios de três alcateias distintas, incluindo um lameiro onde em setembro passado costumava ver as crias nas suas brincadeiras. Numerosas pegadas e dejetos cheios de pelo em todos estes sítios ermos. Presas em abundância, veados sobretudo, corços também. Ainda encontrei dois grandes cervos à luta por simples recreação; neste tempo já não são refregas sérias, mas são vigorosas, o embate das hastes ouvia-se na distância.
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| Veado num lameiro. Foto: Paulo Catry |
Um bando misto de chapins com a coleção completa: reais, azuis, carvoeiros, de poupa e rabilongos, acompanhados das inevitáveis estrelinhas. Estrelinhas-de-poupa também (raras, para o ornitólogo do sul); como é que um pássaro que chega a ter menos de 5 gramas pode pernoitar no monte, nestes janeiros de trevas intermináveis e de frio medonho?
Horas e horas de caminhada. Dores no corpo ao atravessar as ribeiras gélidas com água bem acima dos joelhos. Ninguém no campo. Nem uma só planta florida, nada. Inverno sólido.
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| Veados na madrugada gelada. Foto: Paulo Catry |
Grandes bandos de lugres nas matas de amieiros despidos. Três águias no total e uma única e surpreendente borboleta (Nymphalis polychlorus) de asas largas estendidas ao sol. Lobos? Certamente viram-me eles a mim. Dias de inverno maravilha.
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| Amieiros, choupos, freixos e vidoeiros despidos em pleno inverno. Foto: Paulo Catry |








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