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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Antes de continuar com Bragançãos… vou a Tuizelo!

Por: Rui Rendeiro Sousa
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 Estranho não considerem, os que vão acompanhando estas incursões, o facto de tão rapidamente estar a escrevinhar sobre Gondesende, como virar para Cércio, para, de seguida, ir até Vilar de Peregrinos ou Mascarenhas. Mais de três décadas a “scarafuntchare” estas terras já dá para ter uma «jeitosita» base de dados históricos e bibliográficos. Hoje, calhou a “beze” de mais uma terra com nome «estranho», Tuizelo. E tudo porque…

Coincidências dos dias, e já devem ter reparado, gosto de aniversários «redondinhos». E, há 420 anos, ocorria uma cedência de propriedades entre cidadãos de Tuizelo e de Salgueiros, esta última que parecia estar erma, nesse início do século XVII. Trata-se de um aforamento entre particulares, de um casal que existia em Salgueiros, aldeia ainda hoje anexa de Tuizelo. Contrariamente às anteriores, nunca estive na freguesia de Tuizelo. “Ma num é pur issu que num na cunheçu’e. Pur’u menus sei-l’um tantinhu da stória e dos m’numentus’e. E doutras cousas, bá”… 

A primeira vez que me deparei com a menção a Tuizelo, foi por responsabilidade do ilustre Padre Firmino Martins, autor da insubstituível obra «Folklore do concelho de Vinhais». Não por via directa, naturalmente, mas porque fiquei a saber que tinha vivido a sua vida em… Tuizelo. E, confesso, desde logo engracei com o nome da digna povoação, pela sua originalidade. Mais tarde, voltaria a confrontar-me com o nome Tuizelo na incontornável obra de outro ilustre clérigo: o Padre Francisco Manuel Alves, o célebre Abade de Baçal. 

E não venho aqui para escrever sobre os quase 770 anos documentados de Tuizelo. Nem sobre o seu património, onde se destaca, pela devoção do Povo, o santuário de Nª Sra. dos Remédios. Mas sim acerca do seu «estranho» nome. O qual surge, em buscas toponímicas, como derivando do nome de origem germânica «Teodicellus». Versão esta trazida, em primeira mão, pelo nosso insigne Abade de Baçal. Tudo porque descobriu um rei Visigodo, do século VI, chamado «Teudiselo», ou um discípulo de São Frutuoso, do século seguinte, denominado «Teodiselo» (também há o registo de um bispo com este mesmo nome, no século X). Não sendo um nome comum, o mais recente que consigo detectar é do início do século XI, no ano de 1010: um presbítero que consta na documentação de um mosteiro da província de Lugo, no norte da Galiza! A partir daí, «nicles pataticles», não surgem mais registos acerca deste inusual nome... 

Por outro lado, para quem esteja familiarizado com questões toponímicas, quando nos deparamos com povoações cujos nomes terminam com os sufixos «-elo / -ela», sabemos que se tratam, geralmente, de diminutivos a partir do latim «-ellus / -ellas», como serão bons exemplos Soutelo (souto pequeno) ou Rebordelo (carvalho pequeno). E Tuizelo? E se, ao invés de um antropónimo (que acho muito duvidoso), for um nome derivado de um diminutivo?… Para isso apontam outras designações documentais acerca da povoação. Como, por exemplo, Turoselo ou Torroselo. “Ah peis é”! Tuizelo também aparece assim designado! 

À semelhança de outras duas povoações em Portugal: Torrozelo e Torrozelas. Ou Torrecilla, em Espanha; Tourcelles, em França; ou Torricella, em Itália; mais exemplos havendo… Topónimos que derivam do latim «turris», ou seja, torre («turris» + o diminutivo «ellus» = torreselo…). Ou seja, terá havido um fenómeno muito comum na evolução linguística, ao qual se dá o nome de síncope, através do qual ocorreu a supressão de fonemas no meio da palavra original, em simultâneo ocorrendo, pelo som homófono, a troca do [s] pelo [z]. Isto é, «turrisellus > «turriselo» > «tu(rr)iselo» > Tuizelo! E assim se passou, igualmente, dos «Turoselo» ou «Torroselo», como a povoação surge designada no século XIII, para o «Tuyselo» ou «Tuijzelo», como também surge grafada. E “prontus’e”… Para os interessados nestas coisas, fui a Tuizelo, «torre pequena», e já vim…

(Foto: Vítor Oliveira)


Rui Rendeiro Sousa
– Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer. 
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas. 
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana. 
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros. 
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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