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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 11 de janeiro de 2026

"PELA DANÇA DE UM AMOR"

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


 Trazia sobre o corpo um vestido feito de alvas recordações com a ternura dos dedos que, um dia, a tinham embalado ao som de muitas canções.

O palco, sereno, acolheu-lhe os passos qual mestre que aguarda, silencioso, o desabrochar da sabedoria leve, mas segura, do seu discípulo. A música surgiu suave como um toque de seda que adoça a pele e nos conta segredos. 

Como se o tempo ancorasse naquele espaço sem limites, toda a delicadeza se foi revelando nos seus movimentos a fazerem daquela arte a mais pura prece.

Não era apenas a vontade. Era todo o sentimento contido naquele modo, inexplicavelmente genuíno, de ser corpo e alma indivisíveis. A ponta dos pés e a magia das mãos a envolverem o aconchego dos misteriosos compassos. Sobre a extensão do vazio, apenas ela e a criação rítmica e cadenciada de um milagre, numa oferta de vida ao momento e às sensações inexprimíveis de quem a observava com a respiração cativa no olhar. 

Era uma necessidade muda, a que se fazia em nós, de seguirmos ao encontro profundo daquela relação tão íntima que ela tinha consigo mesma, numa harmonia perfeita, como se cada expressão do corpo fosse uma sedução natural da luz do sol, da imensidão do céu, das vozes misteriosas da terra. 

A revelação da discreta essência de ser, num corpo de menina a transbordar a emoção transformada em arte.

Para ela, a dança era a consciência, a voz, a música do silêncio, a canção da vida. O aroma do infinito no mais belo acorde a vibrar-lhe no peito. 

Na melodia do tempo, fazia parte dela como um antigo sonho por sonhar. Um novo caminho a percorrer. A dor de um passado que se desfez e que a imaginação, hoje, poderia refazer com o sentimento a nascer-lhe do corpo uma e outra, e outra vez.

Jamais voltaria a escutar o som dos afetos na doçura macia dos lábios da mãe. Mas era assim agora que, depois da partida, ela regressava. Pela certeza de um encontro onde nada diziam. Somente a virtude destes eternos instantes que tinham a fragrância de um beijo demorado e aquele encantamento de um amor delicado e vagaroso, sem urgência. 

Era assim, agora, que guardava em si a memória única do que as palavras nunca mais poderiam proferir. Era neste silêncio que a dança se tornava para ela a soma de todas as partes de um só coração. E nela morava a evidência de nunca estar sozinha.

Na intensidade do seu deserto interior, era quando se perfumava assim, num ato de completo e desarmado abandono, e sentia o vento que vinha da própria pele, que redescobria o mais humano e o mais divino dentro dela. 

Era quando renascia nesta cintilação feliz de intimidade, que ela abraçava a eternidade.


Paula Freire
- Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021, “Cultura Sem Fronteiras” (coletânea de literatura e artes) e “Nunca é Tarde” (poesia), e da obra solidária “Anima Verbi” (coletânea de prosa e poesia) editada pela Comendadoria Templária D. João IV de Vila Viçosa, em 2023. Prefaciadora dos romances “Amor Pecador”, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021), “As Lágrimas da Poesia”, de Tchiza (Katongonoxi HQ, Angola, 2023), “Amar Perdidamente”, de Mary Foles (Punto Rojo Libros, 2023) e das obras poéticas “Pedaços de Mim”, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021) e “Grito de Mulher”, de Maria Fernanda Moreira (Editora Imagem e Publicações, 2023). Autora dos livros de poesia: Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022) e As Dúvidas da Existência - na heteronímia de nós (Farol Lusitano Editora, 2024, em coautoria com Rui Fonseca).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."- Bragança e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.

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