(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nestas incursões pelos Bragançãos, tão injustiçados pela História de Portugal, decidi fazer uma inversão cronológica, começando por abordar aquele que será, com bastante probabilidade, o mais injustiçado de todos, aquele ao qual vou designando como «O Último Braganção», não o tendo sido, de facto, que vasta prole deixou. No entanto, foi o último «Tenens» de Bragança, ou seja, o seu último «terra-tenente»… Tendo sido, porém, muito mais do que isso… Num «filme» realizado, de forma magistral, por D. Afonso III, e concluído pelo seu filho, o incomparável D. Dinis.
Nesta inversão cronológica, comecemos por este último monarca. Toda a gente deve saber, um pouco que seja, acerca da representatividade que possui o nome de D. Dinis. Mais não seja pelo facto de, nos velhinhos programas escolares, todos termos de saber os cognomes dos reis, e «Rei Lavrador» ficou. Cognome esse que, na minha humilde perspectiva, não faz jus ao tanto que D. Dinis foi. Porque D. Dinis é considerado, por diversos autores, como o maior rei medieval português (consideração com a qual concordo plenamente). Porque, para lá de «Rei Lavrador», foi o «Rei Tantas Coisas». Nas palavras, julgo que do insuspeito José Mattoso, foi o monarca que «estabeleceu as bases do moderno estado português».
Tratou-se do primeiro monarca do qual se conhece a assinatura, do qual se sabe, efectivamente, que sabia ler e escrever. Foi aquele que incentivou a universidade, que soube, como poucos, ser um «rei diplomata», quer com outros estados, quer com Roma. Foi aquele que nos deixou um inestimável legado escrito, nomeadamente através das suas «cantigas». Foi aquele que… tanta coisa! E por que motivo ando aqui às voltas com D. Dinis, um rei de excepção? Simplesmente porque…
Muitos o deverão saber, os infantes não eram educados pelos pais. E o filho varão primogénito era um caso especial, seria o sucessor! O qual deveria ter uma esmerada educação para, no futuro, assumir os destinos do reino. Mesmo através de uma análise superficial, todos concordarão que D. Dinis terá tido essa educação cuidada. Educação essa que, numa primeira fase, foi ministrada por uma personalidade que não interessa aqui deslindar, sendo, posteriormente, entregue a uma outra: ao «Último Braganção»!
Ou seja, aquele que, na documentação régia de D. Afonso III, surge a confirmar/testemunhar documentos como «Aio de D. Dinis», cargo importantíssimo à época, era um… Braganção! Figura essa que também era o… Meirinho-mor do reino!!! Isto é, o principal encarregado pela garantia da aplicação da Justiça. Ou, de novo nas palavras de José Mattoso, «o primeiro grande polícia do reino». O que representava, à época, uma espécie de «super-ministro» na actualidade. A tal ponto que, a partir de determinada altura, o monarca Afonso III deixou de fazer incursões a regiões mais a norte, tal a eficácia e a eficiência que o seu Meirinho-mor tinha. Eficácia e eficiência que também parece ter tido com a educação de D. Dinis! O qual, quando chegou ao trono, logo tratou de elevar a Mordomo-mor, o mais alto cargo da Cúria Régia, uma espécie de «primeiro-ministro» da Casa Real...
E era um Braganção! «O Último Braganção»… O Aio educador do primo, o grande D. Dinis, o Meirinho-mor do pai, o seu Mordomo-mor, o último «tenens» de Bragança… Primo??? Sim, estavam em patamares semelhantes, eram ambos tetranetos de D. Henrique e D. Teresa...
Amanhã já continuará a saga… Porque, sem «O Último Braganção», mais de metade da História de Portugal, tal como a conhecemos, não teria existido…
Foto: Postal na Biblioteca Nacional de Lisboa)
Rui Rendeiro Sousa – Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer.
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas.
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana.
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros.
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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