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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Como se descobriu um urso-pardo em Portugal, de que não havia rasto há 176 anos

É o “retorno de um grande predador”. Urso-pardo avistado no Parque Natural de Montesinho poderá ficar em território português durante os próximos três meses e depois regressar a Espanha, em direcção à Cordilheira Cantábrica, onde existe uma população à qual se acredita que pertence.
Urso-pardo nas Astúrias PAULO CAETANO

Depois de vários relatos sobre o possível aparecimento de um urso-pardo em Portugal, as autoridades portuguesas confirmaram nesta quarta-feira a presença em território português de um exemplar de urso-pardo, uma espécie considerada extinta no país desde 1843.

“A administração regional [de Castela e Leão] alertou para a presença deste urso às autoridades portuguesas, que finalmente confirmaram a sua descoberta”, revelou em comunicado, citado pela agência Lusa, o Serviço Territorial de Meio Ambiente de Zamora. “Dá-se a circunstância de ser a primeira vez, nos últimos dois séculos, em que a presença desta espécie no país vizinho é confirmada de maneira confiável”, asseguraram as autoridades regionais espanholas.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) português comprovou ao PÚBLICO a presença do animal em Portugal, pelo menos até ao início desta semana, junto ao Parque Natural de Montesinho, não conseguindo confirmar se este urso-pardo ainda se encontra nesta quinta-feira naquela zona.


De facto, confirmamos o aparecimento e a presença de pelo menos um exemplar do urso-pardo em Portugal, no Parque Natural de Montesinho, numa área muito junto à fronteira [com Espanha], no concelho de Bragança e na zona da freguesia de Espinhosela”, explicou ao PÚBLICO o director do Departamento Norte do ICNF, Armando Loureiro.

Segundo o Serviço Territorial de Meio Ambiente de Zamora, citado pela Lusa, o animal, que foi também avistado na região de Sanabria, “pode pertencer” à subpopulação ocidental da Cantábria e deverá ser um adulto em dispersão. Em média, um urso-pardo adulto mede entre 1,4 e 2,8 metros de comprimento (incluindo a cauda) e entre 0,7 e 1,53 metros de altura até ao ombro e pode pesar mais de 200 quilogramas (no caso dos machos).

Em parceria com as autoridades espanholas, da região de Castela e Leão, o ICNF tem estado a monitorizar o animal através de “armadilhas fotográficas” (para fotografar o sítio onde o urso-pardo se encontra) e pessoas no terreno que verificam os indícios da sua presença.

Afinal, de onde vieram os actuais ursos-pardos da Península Ibérica?
“Nos últimos dias de Abril e nos primeiros de Maio, até ao início desta semana, temos acompanhado vários indícios de presença: pegadas, dejectos e pêlo”, acrescenta Armando Loureiro. Até então, o ICNF afirma não ter tido qualquer confirmação da presença do urso-pardo em território nacional.

“Eles não conhecem fronteiras”
Este exemplar pertence a um grupo de “indivíduos dispersantes, errantes de uma população que é bastante densa da Cordilheira Cantábrica, [movimentando-se bastante]”, adianta o director do ICNF. “Eles não conhecem fronteiras e portanto estamos nessa franja de expansão”, acrescenta.

Os machos jovens possuem uma filopatria, ou seja, uma tendência para se dispersarem, enquanto “as fêmeas tendem a ficar no local onde nascem”, explica Armando Loureiro. “Como eles conseguem percorrer grandes distâncias e há bastantes [exemplares] no Norte da Península Ibérica neste momento é natural que eles façam este tipo de incursões”, acrescenta o especialista, que refere ainda ter tido acesso a “informações correctas” divulgadas pelas autoridades espanholas – com registos fotográficos – da presença destes animais mesmo junto à fronteira.

O “retorno de um grande predador"
A presença do animal em território português é, garante Armando Loureiro, um “muito bom” sinal, tendo em conta que o último urso-pardo que viveu em Portugal foi morto em 1843 no Gerês, segundo o livro Urso Pardo em Portugal – Crónica de Uma extinção, de Paulo Caetano e Miguel Brandão Pimenta, publicado em 2017.

“É um retorno de um grande predador. Em Portugal [a espécie] está extinta desde o século XIX”, afirma o representante do ICNF. Porém, Armando Loureiro sublinha que o aparecimento deste urso-pardo não significa que a espécie já não esteja extinta.

“Uma espécie extinta é uma espécie sem viabilidade, sem população. Durante o século XX, por muitas razões, quase desapareceu da Península Ibérica e manteve-se na Cordilheira Cantábrica, aqui nos nossos vizinhos espanhóis. E, nos últimos anos, tem subido a população. Portanto, na Cordilheira Cantábrica há mais ou menos, neste momento, cerca de 300 ursos”, explica o especialista.

Agora, existem várias possibilidades, como diz Armando Loureiro: “Este exemplar pode ficar cá durante um ou dois meses (naquela zona ou próxima); pode fazer 70 ou 50 quilómetros numa noite ou num dia; pode amanhã regressar para norte e fazer um movimento de regresso em direcção à Cordilheira Cantábrica e nos próximos um ano ou dois não voltarmos a ter cá nada. Pode acontecer tudo isto.”

O especialista acredita, contudo, que “não é provável” que se avistem mais ursos-pardos em Portugal nos próximos meses. “Há-de ser um primeiro episódio de episódios mais ou menos frequentes que vão ser interrompidos e não continuados”, esclarece Armando Loureiro.

A médio ou longo prazo, o director do ICNF espera que este aparecimento possa “significar uma maior permanência e porventura uma fixação de uma população [em território português]”. Porém, sublinha que esta é uma questão de anos e não do “imediato”.

Para haver uma fixação da espécie em Portugal era necessário que a este exemplar se juntassem outros indivíduos que por cá ficassem. “Uma população não são dois indivíduos nem três. O mais certo é portanto este indivíduo ficar aqui um dia ou dois a três meses – não mais do que isto – e depois pode regressar, a qualquer momento, para norte até à sua população de origem ou fixar-se fora do território português na Sanabria”, diz Armando Loureiro.

Quanto às repercussões da presença deste mamífero em Portugal, o especialista do ICNF esclarece que o máximo que pode acontecer é o urso-pardo “comer alguma colmeia com mel” (algo que, aliás, o ICNF já se encontra a reunir esforços para prevenir). Tal como aconteceu, nos últimos dias de Abril, num apiário na cidade de La Tejera (Zamora), segundo informaram as autoridades ambientais regionais espanholas.

A esperança é que, a longo prazo, estes animais se possam fixar em Portugal. “Espero que se fique pela presença de um grande carnívoro em Portugal que possa daqui a uns anos ser, como nos picos da Europa, um objecto de atracção para turismo da natureza”, conclui.

Filipa Almeida Mendes
Fugas
Jornal Público

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