Número total de visualizações do Blogue

Pesquisar neste blogue

Aderir a este Blogue

Sobre o Blogue

SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Crónica da gente da minha rua – O Chico Brôa

Por: António Orlando dos Santos (Bombadas)
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nos meus tempos de menino, morava na minha rua, um homem a quem eu atribuía poderes ocultos. Claro que deixo já bem explícito que o que eu pensava não correspondia minimamente à verdade. O seu aspeto e a sua maneira de ser, quase ascética, eram, para mim, causa das mais variadas conjeturas. Há ainda muita gente que se lembrará dele. Chamavam-lhe o Chico Brôa. Coloco o acento circunflexo mesmo que o Acordo Ortográfico o suprima porque para mim o Brôa do Chico não quedaria bem sem o dito. 

Vivia com a mãe, mulher já velha que, como ele, era pouco comunicativa. Não me lembro do seu nome e duvido que alguma vez o houvesse sabido pois, para mim, ela era apenas a mãe do Chico Brôa. Era ardina e trabalhava para o Guedes do Quiosque. Trazia sempre, a tiracolo, um saco de alça onde metia os jornais. Fora confecionado com o mesmo tipo de cotim com que se faziam as fardas da Guarda Republicana. Saía de casa de manhã cedo e normalmente só regressava ao fim do dia. Vestia sempre de escuro e só no pico do Estio aparecia sem um casacão enormíssimo e pesado, que era agasalho que parecia ser parte de si mesmo. Usava cinto da Legião com fivela amarela polida.
Como disse anteriormente, era ardina e fazia a distribuição dos jornais pelas residências dos assinantes e também nos estabelecimentos comerciais. Fazia a coleta dos respetivos pagamentos e também era ele que estava encarregado de levantar os jornais diariamente na Estação do Caminho de Ferro, no setor das tarifas onde pontuava o tio Correia, pai do Zé Russo e do Faróis, mais conhecido pelo tio Ralha. 
Depois da esposa do Guedes fazer a separação, fazia ele a ronda pela cidade na sua distribuição. Falta dizer que, naquele tempo, as pessoas assinavam os jornais para se manterem informadas das novidades e também porque ainda não havia televisão e a rádio era menos diligente do que hoje na divulgação das notícias. Em traços largos era esta a ocupação do Chico Brôa.
O que fazia depois disto, que lhe ocupava uma boa parte do dia, nunca eu soube muito bem. Bebia os seus copos mas sem exagero. A convivência com a mãe era pacífica, já que ele próprio indubitavelmente o era também. Creio que era Legionário pois o uso do cinto preto, de couro com fivela amarela, assim o indiciava.
Uma coisa ele era de certeza – Irmão da Misericórdia. Aí era onde residia todo o meu fascínio por ele. Na Sexta Feira Santa, havia a procissão do Senhor dos Passos e à frente, em primeiríssimo lugar, surgia o Chico Brôa de um lado e o Zé Sarrafo do outro. Levava cada um duas matracas que compassadamente faziam rugir com uma cadência lenta,, fazendo-as soar com um som lúgubre e arrepiante. Vestiam ambos o hábito da irmandade, preto e roxo que atavam no pescoço com uma tira de cetim preto. As tábuas, que cada qual transportava, eram grossas e tinham, encastoadas, ferragens que, como batentes, faziam esse ruído que me fazia pele de galinha. 
Durante anos, foram estes dois personagens os principais elementos da Procissão da Sexta Feira Santa. Para mim, é claro. Não me interessavam os anjinhos, os soldados romanos, o judeu dos pregos ou mesmo o Bispo debaixo do Pálio exibindo o Santíssimo, nem todas as Autoridades, ditas forças vivas da cidade, hirtas e solenes. O Senhor Morgado vai de sege rica, todo repimpado. Ai que bem lhe fica o chapéu armado e a comenda ao peito! (Adriano Correia de Oliveira). Nem sequer a cruz vazia, segura por laços brancos, que os Seminaristas transportavam me retiravam os olhos do alerta constante dos dois da frente. Com as matracas lugubremente soando ameaçadoras, eram o clímax de um ano inteiro. O Chico Brôa e o Zé Sarrafo fechavam o arco do ano do fascínio e do temor que, na minha cabeça, o Chico Brôa representava. Um homem calado qual ermitão que, por razões desconhecidas, imprimia na minha imaginação o medo de que, num dia daquela procissão, ele seria capaz de ordenar aos elementos que repetissem a absência do sol que recriasse a escuridão que seguiu a trovoada de raios e coriscos que, às três da tarde daquela era do Senhor, fez expirar o Salvador para o reerguer três dias após, como rezam as Escrituras.
O meu quase temor por ele foi-se esbatendo e quis, mais que uma vez, estabelecer conversa com ele. Em vão. Respondia sempre por monossílabos. Repito que não era homem de mau feitio mas creio que lhe pesava o fardo que era para ele o dialogar com alguém. Nunca tive medo dele, pois a sua figura era serena, apenas o seu ar triste e o facto de ser o homem das matracas, que repetiam sempre o ratatatata do meu temor de menino, me afastavam dele. Nunca consegui um sorriso daqueles lábios fechados.
Em 1969, eu e minhas irmãs saímos da Caleja e perdi o contacto. Ele ficou, pois morava do lado poupado ao camartelo. Quando regressei da tropa, já havia falecido, não sei se antes se depois de sua mãe. Quando comecei a escrever esta crónica prometi a mim mesmo indagar sobre ele. Talvez o Abílio Reis me saiba dizer algo. Para mim, ele é mais um dos nossos, um da Caleja, a quem devo o meu respeito e de quem não sei sequer onde fica a sua sepultura! Prometo inteirar-me. Afinal a memória trouxe-me o Chico Brôa de volta.





Paris, 02/05/2018
A. O. dos Santos
(Bombadas)

Sem comentários:

Enviar um comentário