Por: António Orlando dos Santos (Bombadas)
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
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| O Senhor Adriano Emílio Carneiro (Adriano Manco-1º plano de fato escuro) na Mina, em tempo de verbenas. |
De todos e como mais castiço destaco um que sendo um homem que lidava com gente de todas as condições sociais, soube sempre preservar um distanciamento que lhe garantia poder falar com todos como se fosse um amigo e companheiro de estrada. Era conhecido pela alcunha que se baseava no facto de ser deficiente de uma perna que era ligeiramente mais curta e que os homens e mulheres daquele tempo com um pouco de mordacidade chamavam Adriano Manco. O seu nome verdadeiro era Adriano Emílio Carneiro.
Era Alfaiate e tinha na Rua Direita a sua Alfaiataria e também na mesma casa um Café, bem afreguesado e que já está esquecido pelo povo, sendo que alguns da minha idade para cima ainda se recordam do seu nome, muito bem escolhido por ele e que se chamava Café Astória. Recordei-me hoje da forma como se integrava na Rua e exercia uma missão social importantíssima para que a vida da cidade fosse mais fácil e agradável de viver.
Ao passar na Rua Direita e ter notado que o edifício onde se localizava o Café e a Alfaiataria foi derrubado para ser substituído por outro mais moderno, pensei que seria de bom-tom integrar no novo edifício uma resenha histórica que desse notícia da história que até está bem documentada e que pelo menos nos últimos cem anos tem suporte de memória e até escrita. Foi propriedade de alguém que o legou aos filhos tendo estes mandado gravar uma pedra que se encontra em bom estado de conservação. A pedra foi encontrada algures pelos operários e esteve exposta à entrada do edifício e despertou as atenções de muita gente que tem curiosidade de saber das coisas esquecidas da nossa terra. Eu li o memorial que se apresentava como uma homenagem ao fundador do edifício redigido com palavras de agradecimento no primeiro parágrafo, seguindo-se depois menção a datas e outra informação que me pareceu ser importante para o conhecimento de algumas particularidades.
Acontece que como a pedra era propriedade do construtor eu achei que seria do mais basilar bom senso que ele a resguardasse para a expor posteriormente, juntamente com outra informação útil que viesse a ser considerada como tal.
Hoje 14/05/2022 perguntei ao dito construtor o que haviam feito à dita pedra e a resposta que me deu, surpreso por eu perguntar, foi que não sabia, que talvez os trabalhadores a tivessem posto no lixo. Não retorqui, mas depois de muito pensar se eu não estaria a ser ridículo, decidi voltar no dia seguinte inquirindo junto dos trabalhadores ou alguém que me informe, pois não creio que pusessem a pedra no lixo. A minha ideia era propor ao construtor que em consonância com o Arquiteto e alguém da Câmara que no "Hall "fosse esteticamente colocada informação ao público do historial do prédio primitivo, que foi espaço que para lá do negócio do fundador albergou o dito Café Astória, uma loja de produtos alimentares de curta duração (Porfírio) e por fim a Mercearia de produtos finos do Sr. Victor Abreu que durante décadas deu à cidade uma loja de alta classe, cujos produtos de primeira categoria só tinham concorrência na simpatia do proprietário e sua esposa que hoje se tornaram numa referência incontornável.
Alojou o edifício no tempo do Sr. Adriano Carneiro, uma Alfaiataria, um salão de jogos e após a saída deste para África, também uma loja de venda de gás doméstico do Sr. Álvaro das Neves, bem assim como Escritórios de Advogados (Dr. Nuno Maia).
Na parte lateral esquerda houve nos meus tempos de miúdo uma Chapelaria que era um dos meus mistérios insondáveis, pois eu não compreendia como um só chapeleiro conseguia fazer tantos chapéus. Esta parte foi agregada à loja do Sr. Vítor Abreu o que fez terminar para sempre a arte de chapelaria em Bragança.
Claro que esta ideia da placa e outra informação é apenas uma ideia minha que carece da aprovação de quem manda na propriedade. É assim apenas uma ideia que carece de consubstanciação.
Voltemos ao Sr. Adriano Carneiro. Adriano Carneiro natural de Bragança, faleceu em Lourenço Marques onde o seu corpo repousa.
Era compadre não sei quantas vezes dos meus pais. Sei que sempre que havia mata porco em sua casa era o meu pai quem matava o bicho e a minha mãe quem fazia o fumeiro. Isto justifica o que eu conheço deste personagem que num certo tempo da minha meninice, me intrigou e quis saber qual a razão da sua deficiência na perna e nada mais lógico do que perguntar à minha mãe. Como sempre não fiquei sem troco, ou seja obtive uma resposta mas fiquei a saber o mesmo que sabia antes e ainda sem direito a duvidar.
O diálogo foi mais ou menos este: - Mãe porque é que o Sr. Adriano é Manco de uma perna? : -Não sabes? :-Não, mas presumo que tenha sido acidente. :- De facto foi, mas um acidente bizarro.:- Como assim? :-Ele há uns anos pensou em subir ao céu. Pensou como deveria fazer para conseguir tal desiderato. O primeiro pensamento foi o de utilizar as caixas das sardinhas que o Zezão tinha empilhadas junto da sua barraca de venda de peixe no Mercado. Começou então a fazer uma coluna de caixas que paulatinamente se foi aproximando do céu. Quando chegou a uma determinada altura, acabaram -se as caixas que o Zezão e os outros peixeiros tinham colocado na traseira das barracas de venda do peixe. Acontece que faltava uma única para ele tocar no que pensava ser o céu.
Depois de muito matutar na melhor forma de concretizar o seu objetivo pediu ao Zezão que retirasse a caixa que estava colocada em primeiro lugar junto ao solo, para completar a pilha que com mais uma e só uma que faltava resolveria o problema. Mas aí algo de mau aconteceu.
Quando o Zezão retirou a caixa a pilha entrou em descompensação por falta de solidez na base e caiu com fragor.
Ora como ele estava lá no cimo a queda foi grande e ele foi levado para o Hospital onde o curaram mas não puderam evitar que ele tivesse ficado Manco para o resto da sua vida.
Quedei-me mudo e a pensar em tal propósito que só poderia resultar no que resultou. Concluí que a minha mãe ou não sabia por que razão o Sr. Adriano era Manco, ou tinha inventado a história para me refrear a mim de aventuras malucas que normalmente resultam em desgraça. Nunca cheguei a saber a razão de tal acontecimento que o marcou.
Digo-vos apenas que com este homem, trabalhador, honesto e amigo do seu amigo aprendi muita coisa que me acompanhou na vida para meu proveito e solidificação do amor à nossa terra.
Bragança,14/05/2022
A. O. dos Santos
(Bombadas)


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