sábado, 21 de agosto de 2021

Lucioperca: este predador veio de França e rapidamente invadiu Portugal

 No âmbito de uma série sobre espécies aquáticas invasoras, Filipe Ribeiro, investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ligado ao projecto LIFE Invasaqua, explica tudo o que precisamos de saber sobre este peixe que pode chegar aos 15 quilos de peso.

Foto: Filipe Ribeiro

Que espécie é esta?

Nem lúcio, nem perca! É a lucioperca (Sander lucioperca)!

É um peixe estreito e comprido, com uma coloração esverdeada a castanho-clara podendo ser amarelo ou dourado na zona lateral e branco na zona ventral. O corpo está coberto por escamas muito pequenas e na zona lateral possui umas barras verticais escuras ligeiramente difusas. A lucioperca tem uma cabeça grande com dentes proeminentes e tem duas barbatanas dorsais, sendo a posterior espinhosa. Pode atingir um comprimento máximo de 1 metro e cerca de 15 Kg de peso. É uma espécie que geralmente vive até 10 anos, podendo chegar aos 15 anos. É nativa da região ocidental da Ásia até à Europa Central, tendo sido introduzida em cerca de 20 países, principalmente europeus. Os adultos alimentam-se quase exclusivamente de peixes e lagostins e os juvenis alimentam-se de invertebrados aquáticos.

Como chegou a Portugal?

A lucioperca foi primeiramente introduzida na década de 1970 pelos Serviços Florestais dos Açores nas lagoas da Ilha de São Miguel. No continente foi introduzida ilegalmente em 1998 na barragem do Ermal (ou Guilhofrei) que se situa na parte superior do rio Ave e desta localidade foi levada para outras barragens e rios do norte do país. Quase simultaneamente, entre 2003 e 2005, alguns indivíduos de lucioperca foram chegando a Portugal desde Espanha, através dos rios Douro, Tejo e Guadiana.

Onde é que está presente no nosso país?

É uma espécie que ocorre principalmente em barragens e nos grandes rios de Portugal. Tem uma enorme capacidade de deslocação e por isso pode rapidamente colonizar os rios para montante. Por apresentar uma certa tolerância à salinidade pode também aparecer na zona superior dos estuários. Devido ao elevado interesse na pesca lúdica, vários pescadores introduziram a lucioperca em várias barragens em Portugal, estando atualmente presente em quase todas as bacias hidrográficas de Portugal. Apresenta também grande interesse para a pesca profissional sobretudo devido ao seu elevado valor gastronómico.

Foto: Filipe Ribeiro

Mas qual é o problema com esta espécie invasora?

Em menos de 20 anos, a lucioperca foi amplamente introduzida por pescadores lúdicos em Portugal em quase todas as bacias hidrográficas do nosso país. Apesar de a sua introdução ter sido principalmente em barragens, a espécie rapidamente se dispersou para os grandes rios e algumas ribeiras. As comunidades aquáticas de peixes nativos não possuíam qualquer peixe predador. Por isso, muitos destes peixes nativos não conseguem reconhecer o perigo que um predador piscívoro representa e, consequentemente, são muito suscetíveis à predação pela lucioperca. 

Ora, num estudo realizado sobre os hábitos alimentares da lucioperca em 11 populações em diferentes locais em Portugal, incluindo albufeiras e rios, verificámos que cerca de metade das presas das luciopercas em rios são peixes nativos (ex. barbo, boga) e que em algumas barragens predam a achigã (Micropterus salmoides). Esta última é também uma espécie exótica que tem um enorme interesse e valor na pesca lúdica e desportiva. Os pescadores lúdicos acabaram por prejudicar a sua própria atividade através da introdução de outro predador. Neste estudo também percebemos que a predação sobre os peixes começava logo no final do 1º ano de vida. Luciopercas com 15 cm já consumiam peixes e aos 25 cm a maioria alimentava-se de outros peixes. É um peixe que ao longo de um ano consome o seu peso em presas.

Foto: Filipe Ribeiro

Como é que se consegue controlar ou erradicar as populações desta espécie? 

Não é possível erradicar as populações da lucioperca, uma vez têm uma elevada fecundidade. Cada fêmea pode produzir entre 85 mil a 250 mil oócitos por postura. É uma espécie que pode chegar à parte superior dos estuários, tolerando alguma salinidade. É uma espécie muito oportunista em relação à sua alimentação, predando principalmente as espécies mais comuns, até mesmo comendo os seus próprios descendentes. Assim, a melhor forma é prevenir que seja introduzida noutras albufeiras ou noutros rios onde ainda não ocorre. A pesca lúdica e profissional poderá ser uma forma de controlo das populações, principalmente importante nos locais onde os seus impactos são mais relevantes, concretamente nos rios e ribeiras.

E qual é a situação noutros sítios do mundo onde é (ou era) invasora?

A lucioperca é uma espécie que invadiu principalmente os países do Sul da Europa mas também alguns países do Norte de África. Por exemplo, a sua introdução no Lago Eğirdir (Turquia) foi relacionada com o desaparecimento de sete das dez espécies nativas no final dos anos 80. Para além disso, deste trabalho e do nosso, o impacto da lucioperca não está tão bem estudado noutros países.

Foto: Filipe Ribeiro

Que cuidados devemos ter?

Atualmente, a lei da pesca é o principal mecanismo para a sua gestão. Neste momento, segundo a lei, os pescadores lúdicos não podem devolver os indivíduos capturados para a natureza após a sua captura. Apesar de alguns pescadores consumirem a lucioperca, existem muitos pescadores que devolvem os peixes de volta à natureza porque não concordam com a lei da pesca. É importante haver mais sensibilização ambiental junto dos pescadores para prevenir a sua dispersão, dado que muitos não sabem dos impactos que podem causar, mesmo até nas espécies exóticas que eles preferem pescar como é o caso da achigã. 

Uma curiosidade…

A lucioperca terá chegado a Portugal continental diretamente de França. Apesar de já existirem populações de lucioperca em Espanha, o primeiro local de ocorrência é na bacia hidrográfica do Ave, que é uma bacia exclusivamente portuguesa. Sabe-se que a elevada emigração para França de portugueses naturais da região do vale do Ave promove um elevado fluxo de pessoas entre estas regiões e o rio Ave tem sido um dos locais onde ocorreram pela primeira vez em Portugal alguns peixes exóticos invasores (por ex. o Gardon, Rutilus rutilus). Por último, alguns dados de genética populacional de lucioperca, mostram que existe uma relação de proximidade entre as populações do norte do país com as populações francesas da região de Bordéus. Estes factos suportam a ideia de que algumas pessoas introduzem regularmente e ilegalmente no rio Ave peixes exóticos provenientes de França.

Filipe Ribeiro

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