terça-feira, 31 de agosto de 2021

"Pare, escute e olhe" a aposta que a CP está a fazer nos comboios históricos

Tal como prometemos em julho, cá estamos de regresso aos carris para uma segunda temporada das crónicas "Próxima Estação". A volta pelos caminhos de ferro nacionais fez-se, numa primeira fase, pelas linhas da Beira Alta, Beira Baixa, Leste, Sul, Alentejo, Algarve e Oeste.


Nesta segunda etapa, voltamos a pegar nos bilhetes e a embarcar mais a Norte, pelas linhas do Vouga, Minho, Douro, Norte, Braga e Guimarães. Aqui, tal como fizemos a Sul, inevitavelmente falaremos das centenas de quilómetros de vias desativadas. Não só perderemos o olhar na imensidão do Douro Património Mundial, que é possível apreciar embarcando no histórico comboio Miradouro (do qual falaremos atempadamente) como também recordaremos as quatro vias que do Douro ramificavam e que estão, toda elas, extintas: Tâmega (até Arco de Baúlhe), Corgo (até Chaves), Tua (até Bragança) e Sabor (até Miranda-Duas Igrejas). Assim estão: extintas, umas abandonadas, com património a ruir, outras "afogadas". Em 1968, Portugal tinha uma extensão de 3.592km de linhas de comboio. O país encolheu mais de mil quilómetros de ferrovia, em 52 anos.

Ao contrário da Suíça, que manteve as suas linhas de via estreita, com comboios a rolar a 90km/h, serpenteando montanhas, atravessando desfiladeiros, rompendo túneis e chegando a altitudes que ultrapassam os 2500 metros, Portugal fechou aquelas que, em termos de paisagem e de atração turística, seriam "a galinha dos ovos de ouro". Fechou-as, justificando o encerramento com a falta de segurança, a pouca rentabilidade devido à baixa procura e as baixas velocidades atingidas. Vamos ao exemplo do Tua, na primeira parte que fechou a 17 de dezembro de 1991, entre Mirandela e Bragança. A história que conheço melhor, devido aos oito anos que trabalhei como jornalista na Rádio Onda Livre, em Macedo de Cavaleiros. Aqui, em Macedo, neste mesmo dia, foi retirado todo o material circulante que existia na estação local. Nesta linha, a do Tua, não houve qualquer investimento de fundo na manutenção desde a sua abertura em 1887 (Tua-Mirandela) e 1906 (Mirandela - Bragança). Este desleixo é a justificação para que os comboios, em alguns troços, não pudessem andar a mais do que uns meros 20 a 25km/h. Quando fechou (Mirandela-Bragança), utilizavam esta ferrovia, por ano, meio milhão de passageiros, não esquecendo que também ainda era utilizada para o transporte de mercadorias.

Quando cheguei a Trás-os-Montes para trabalhar, em 2005, apenas havia comboios entre Mirandela e a estação do Tua, assegurados pela Metro Ligeiro de Mirandela. Em 2007, noticiei aos microfones da Onda Livre o descarrilamento de uma das automotoras, que vitimou mortalmente uma pessoa e feriu cerca de 4 dezenas de pessoas. Não ia vazia, pelo contrário. Mas o desinvestimento na manutenção da via, um segundo descarrilamento que se seguiu passado pouco tempo, era sinal de que estava ditado, mais cedo ou mais tarde, o seu fim.

O potencial turístico dos comboios históricos está a fazer com que voltem aos carris um pouco por toda a Europa este tipo de composições. Portugal está a acompanhar esta aposta e a CP criou uma equipa de reparação de comboios históricos, para assegurar material circulante. É possível fazer a viagem num comboio secular na linha do Douro e em parte do que sobre da linha estreita do Vouga. Atrever-me-ia a dizer: a única linha estreita de comboio que tem resistido, contra tudo e contra todos... ou quase todos... ainda que desativada de Sernada até Viseu e parcialmente encerrada e com transbordo de táxi entre Sernada e Oliveira de Azeméis. Como é a linha que percorreremos amanhã, deixemos os pormenores para mais tarde. Por agora, a aposta da CP nos comboios históricos.

Há relativamente pouco tempo, os turistas que viajavam de comboio pelo Douro, além das tradicionais fotos à paisagem vinhateira, faziam das abandonadas carruagens napolitanas, de via estreita, na estação do Tua, o spot para umas "flashadas" à desgraça, abandono e desprezo em que estavam. O próprio José Carlos Barbosa, diretor de engenharia e manutenção da CP, falou em "vergonha e desleixo de passar no Tua e ver as carruagens assim vandalizadas, com vidros partidos". Na verdade, era esta a imagem que a CP transmitia não há assim tanto tempo e bem estaríamos nós se fosse apenas no Tua.

Atualmente, é possível fazer a viagem num comboio puxado por locomotiva a vapor na linha do Douro e em parte do que sobra da linha estreita do Vouga. Parece que a aposta no turismo ferroviário também se está a fazer por cá e, para isso, assegura José Carlos Barbosa, foi criada uma equipa para reparações, manutenção e melhoramentos, "porque o turismo ferroviário tem muito potencial em toda a Europa e aqui em Portugal ainda mais porque temos linhas fantásticas". E mais teríamos, se não tivessem sido desmantelados mais de mil quilómetros de ferrovia. Então de via estreita nem se fala... a tendência sempre foi construir linhas aproveitando os vales esculpidos pelos rios, por isso não nos faltavam paisagens bonitas para turista ver. Tivéssemos ainda as linhas de via estreita que mencionei acima e não chegava uma semana para percorrê-las e levar para fora de Portugal à velocidade de um click milhares de fotografias: a melhor publicidade que se pode fazer a um país!

Para além das carruagens napolitanas de via estreita, a CP deu nova vida às carruagens Schindler da década de 50, que vieram para a linha de Sintra e agora estão ao serviço no Douro. As janelas podem ser abertas, pouco comum nos comboios atualmente e oferecem condições ideais para apreciar a paisagem património mundial da Unesco. Assim espero fazê-lo por estes dias. Cabeça de fora, ao vento, de olhos postos na locomotiva que, a cada curva, se torna bem visível. Foi assim em 2001 quando fiz, pela primeira vez, a viagem Porto-Pocinho e espero, muito sinceramente, repeti-lo.

E o custo de voltarmos a ter comboios "com pinta" parece que é relativamente baixo, pelo menos assim assegura José Carlos Barbosa: "aquilo que fizemos foi começar a recuperar o material histórico abandonado, com custos baixos porque já tínhamos a mão-de-obra."

Esta equipa faz também recuperação de material histórico que pertence a algumas autarquias e dedica-se a estas manutenções quando abranda a carga de trabalho nas outras composições.

E a aposta neste "pacote" histórico parece começar a dar resultados. Os números indicam que "temos tido os comboios históricos do Douro e do Vouguinha esgotados e, no futuro, haverá uma mais-valia, pois muitos estrangeiros procuram a CP pelos comboios históricos que temos". Há até mesmo já um grupo de ingleses que quer fretar um comboio histórico para uma viagem exclusiva.

Atualmente, na linha do Vouga, devido às altas temperaturas e ao risco de incêndio com as locomotivas a vapor, tem havido outra solução. O recurso tem sido recorrer à locomotiva Alsthom de via estreita, igual àquelas que foram vendidas para Madagáscar. Além desta, só existem no país mais duas abandonadas em Guifões. Parece que a CP está a estudar a reparação de uma outra "para termos alguma redundância".

A ideia é boa, mas o trajeto é curto. O trajeto do comboio histórico da linha do Vouga só não é mais longo, porque outrora a ideia foi curta. O comboio histórico só vai de Aveiro a Sernada do Vouga. Daqui até Viseu a linha foi desativada em 1990 e em 2013 passou a ser impossível fazer de comboio o troço entre Sernada e Oliveira de Azeméis, por falta de condições de segurança da via. É pela linha do Vouga e pelo mítico "Vouguinha" que começamos esta nova temporada das crónicas, "Próxima Estação".

Miguel Midões

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