sábado, 21 de agosto de 2021

O que procurar no Verão: o carvalho-negral

 De todas as espécies de Quercus presente em Portugal, destaco o carvalho-negral. O valor paisagístico, a longevidade e a majestade daquele espécime que parecia “perdido” na floresta, encantou-me numa das minhas mais recentes explorações pela natureza.

Foto: Luis Fernández García/WikiCommons

Aquela árvore parecia não pertencer ali. A imponência da copa frondosa, a beleza peculiar da folhagem, a elegância do tronco e a abundância de frutos deixaram-me fascinada. Era uma presença singular no meio de outras espécies que dominam agora a paisagem florestal portuguesa. Mas nem sempre foi assim. 

São muitas as espécies de carvalhos que povoam as florestas nativas de Portugal. Os registos históricos dizem-nos que, em tempos, as nossas florestas eram dominadas por estas árvores.

Carvalhos-negrais. Foto: Luis Fernández García/WikiCommons

No entanto, a realidade atual é bem diferente e as formações arbóreas e arbustivas destas espécies que existem atualmente em nada se comparam com os bosques de carvalhos que existiram no passado.

De entre as mais de 460 espécies do género Quercus, existentes e identificadas em todo o mundo, oito surgem espontaneamente em Portugal Continental: o carvalho-negral (Q. pyrenaica), o carvalho-roble (Q. robur), o carvalho-português (Q. faginea), carvalho-anão (Q. lusitanica), o carrasco (Q. coccifera), o carvalho-de-Monchique (Q. canariensis), o sobreiro (Q. suber) e a azinheira (Q. rotundifolia).

Os carvalhos pertencem à família Fagaceae, à qual pertencem também outros género botânicos bem conhecidos, como o castanheiro (Castanea sativa) e a faia (Fagus sylvatica).

De todas as espécies de Quercus presentes em Portugal, destaco o carvalho-negral. O valor paisagístico, a longevidade e a majestade daquele espécime que parecia “perdido” na floresta, encantou-me numa das minhas mais recentes explorações pela natureza.

Carvalho-negral

O carvalho-negral – também conhecido como carvalho-pardo, carvalho-das-beiras, carvalho-pardo-da-beira e carvalho-pardo-do-Minho – é uma árvore que pode crescer até 25 metros de altura e atingir idades entre os 120 e os 300 anos.

De copa ampla e arredondada, tronco direito, por vezes irregular, o carvalho-negral possui uma casca espessa, acinzentada e gretada, sobretudo nos exemplares mais velhos. Os raminhos são geralmente tomentosos e aveludados.

As suas folhas são caducas ou marcescentes, pois podem permanecer na árvore mesmo depois de secas. São simples, subcoriáceas, lobadas e variam muito quanto ao recorte e às dimensões. A página superior é de cor verde muito escuro e sem brilho e a inferior é muito tomentosa, o que lhe confere uma cor esbranquiçada a acinzentada. As folhas mais jovens podem apresentar tons rosados a violáceos. O pecíolo é curto e também é densamente felpudo.

Foto: Luis Fernández García/WikiCommons

O carvalho-negral é uma espécie monóica, pois possui flores femininas e masculinas que surgem separadamente no mesmo indivíduo.

As flores surgem na primavera, entre os meses de abril e junho, dispostas em amentilhos densamente pilosos. As flores masculinas são amarelas e mais evidentes, e as femininas são mais discretas e esverdeadas.

Esta espécie frutifica a partir dos 20 anos. O fruto é uma glande, ou bolota, de tamanho e forma variável, com uma cúpula de escamas imbricadas e aveludadas. Começa a formar-se no final da primavera, surgindo solitário ou agrupado em conjuntos de duas, três ou até cinco bolotas, com pedúnculo curto. As bolotas são inicialmente verdes e permanecem assim ao longo de todo o verão, amadurecendo entre os meses de outubro e novembro, onde assumem uma cor acastanhada.

Importante na preservação da diversidade biológica

O carvalho-negral é uma espécie dominante em matas de clima mediterrânico. A sua distribuição natural encontra-se compreendida entre a região oeste e sudoeste da França, a Península Ibérica, a Península Itálica e o norte de Marrocos.

Forma bosques de grande extensão, sendo em Portugal que se encontra a maior área ainda existente desta espécie, estando presente em quase todas as regiões do país, excepto no Algarve e nos Arquipélagos. Ocorre com maior dominância nas regiões do Norte e Centro em zonas montanhosas, encostas e planaltos e em regiões de clima continental.

Habita preferencialmente em locais com exposição plena, solos graníticos, ácidos e húmidos. É uma espécie calcífuga e suporta muito bem o frio, a neve e as geadas, bem como verões quentes e secos e períodos de chuva intensa.

Ecologicamente, o carvalho-negral é muito importante na preservação da diversidade biológica dos ecossistemas, contribuindo para a proteção do solo contra a erosão, para a fertilidade do solo, para a diminuição do risco de incêndio, para a salvaguarda da paisagem natural.

É também uma fonte de alimento essencial para muitas espécies animais, desde insetos, aves e mamíferos, que apreciam muito as suas bolotas. Alguns destes animais, como os gaios, por exemplo, são responsáveis pela disseminação e surgimento de jovens carvalhos, pois durante o inverno, têm por hábito de enterrar as bolotas, como reserva alimentar.

Além disso, proporciona condições favoráveis ao aparecimento de muitas outras espécies no seu subcoberto, como é o caso da giesta-amarela (Cytisus striatus), o trovisco (Daphne gnidium), a urze-vermelha (Erica australis), o selo-de-salomão (Polygonatum odoratum), a rosa-albardeira (Paeonia broteri), o tojo-gadanho (Genista falcata), musgos, cogumelos, etc.

Aplicações florestais

O carvalho-negral é uma espécie bastante interessante do ponto de vista florestal.

A sua madeira é dura, resistente e de elevada durabilidade natural aos fungos e insectos e é muito usada em tanoaria, marcenaria e carpintaria, na criação de móveis, tacos, soalhos, barris ou até travessas dos caminhos-de-ferro.

Também possui elevado poder calorífico, sendo utilizada como combustível, na forma de lenha ou de carvão vegetal. Para além disso, a casca é rica em taninos, o que a torna muito interessante para o curtimento de peles.

Foto: Luis Fernández García/WikiCommons

E, como acontece com outros carvalhos, esta espécie produz como defesa contra a picada de um insecto – mais propriamente uma vespa – umas pequenas excrescências globosas e esponjosas, muitas vezes confundidas com os frutos e que são comumente conhecidas como bugalhos, também eles ricos em caninos.

As folhas, como forragem verde, e as bolotas maduras são usadas como alimento para o gado.

Do ponto de vista humano, as bolotas também possuem aplicações culinárias e terapêuticas. A farinha de bolota de carvalho-negral, por exemplo, é usada para obtenção de licores e no tratamento de diarreias.

O carvalho-negral possui também interesse como árvore ornamental, sobretudo em espaços amplos onde possa crescer e desenvolver-se sem qualquer constrangimento.

Etimologicamente o nome desta espécie está muito associado à suas possíveis origens e a um forte simbolismo mitológico.

O nome do género Quercus é o nome clássico, em Latim, dado aos carvalhos, azinheira e sobreiro e deriva do prefixo celta quer -, que significa “belo” e –cuez, que significa “árvore”, ou seja, “a árvore por excelência”, devido à sua utilidade, importância e imponência, assim como sabedoria e conhecimento. Os carvalhos, de uma maneira geral, estão associados à noção de força e resistência, e no passado, eram considerados sagrados para muitos povos.

O restritivo específico pyrenaica, deriva do latim pyrenaicus, de Pirenéus, contudo esta atribuição não foi muito bem-sucedida, pois a sua ocorrência nesta região é rara.

Se explorar a natureza para procurar esta espécie, aproveite a sua sombra para um merecido descanso e encante-se com a beleza das suas folhas e dos frutos que só agora começam a maturar.

Dicionário informal do mundo vegetal:

Marcescente – folha que persiste na árvore, mesmo depois de murcha ou seca. Geralmente fica pendurada na árvore até a formação das novas folhas, na estação mais favorável.
Subcoriácea – folha com consistência semelhante à casca da castanha ou do couro.
Lobada – folha simples que possui margens profundamente recortadas que a dividem em pequenos lobos, no entanto, menores que a metade do limbo.
Pecíolo – pé da folha que liga o limbo ao caule.
Monóica – espécie que apresenta flores femininas e masculinas separadamente na mesma planta.
Amentilho – Inflorescência semelhante a uma espiga, onde as flores, geralmente unissexuais, surgem agrupadas num eixo comum.
Calcífuga – Planta que não se desenvolve em solos calcários.

Carine Azevedo

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