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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Foi em Bragança, no mês de Maria

Por: Humberto Pinho da Silva
(colaborador do "Memórias...e outras coisas..."

Corria o mês de Maio… Mês das flores e de Maria.
Batidas pela luz luminosa da manhã primaveril, as velhas pedras, do velho castelo, ganhavam novo brilho, e refulgiam, cintilantes, por entre antigas casas da cidadela medieval.
O delicado recorte, do vetusto burgo – ex-libris da cidade, – invocativo de gestas, de gloriosos tempos; tempos de homens robustos, que se entregavam à morte: pela Fé, pela Pátria, e pela Honra, pareceu-me, nesse recuado dia de Maio, Dia das Cantarinhas, antiquíssima iluminura, arrancada a velha e amarelecida página, da nossa velha e gloriosa História.
Chegavam diluídas à ampla e panorâmica varanda, banhada pelo sol doirado da manhã, quebrando o silêncio, o rosnar murmuroso de viaturas, com vozes longínquas e frases esgaçadas, trazidas pela brisa fresca da Sanábria, à mistura, com alegres pipios, de pardalitos, que festivamente saudavam o sol matinal.
A menina dos totós, agora senhora de acetinado rabo-de-cavalo, folgava, esfuziante, correndo solta, pela casa paterna; balanceava, ritmicamente, os mimosos bracitos, bem torneados; e sacudia, esvoaçando, o fino cabelo castanho, que escorria, doirado, pelos ombros e pelas costas, quase até à cintura.
O semblante era alegre; o andar leve, como leve é o andar da jovem gazela; e os olhos, bem arregalados, eram duas pequenas pérolas saltitantes, de azeviche, sorrindo de felicidade.
Ora se debruçava no parapeito verde da grade; ora penetrava, borboleteando, na estreita salinha, envolta em silêncio, onde a jovem mãe, lia, atentamente, o jornal da localidade; ou rompia, como tufão, pela cozinha, onde a mana querida, cuidava, zelosamente, da sobremesa do almoço; ou mergulhava no sombrio corredor, sempre em desenfreadas corrimaças.
De súbito, estaca.
Fica pensativa, de olhos sonhadores, enxergando não sei quê. Volta a correr; galga, dois a dois, os degraus de acesso à porta da rua; e saltitando sempre, como feliz passarinho, envereda para o quintal.
Era uma manhã doirada do mês de Maio; mês de Maria e das flores…
Pintara-se o céu de azul; azul encharcado de luz, translúcido e misterioso.
Entre a vegetação rasteira do quintal, havia raquítico arbusto, arvorezinha anã, que medrava em terra pobre e ressequida.
A garotinha, de tez doirada, cor de areia, dona de soberbos e expressivos olhos, irradiantes de ternura, mansamente, avizinhou-se do arbusto.
Estática, mira-o por instantes; entorta a cabecinha. Depois…num ápice, estica-se; apruma-se; ergue-se em biquinhos dos pés; e num salto certeiro, encarrapita-se num garfo, enlaçando-se, de pés e mãos, ao fino e frágil tronco.
A arvorezinha, oscila, cambaleia, balança, parece quebrar, mas de novo se ergue.
A menina, baloiçando, eufórica, solta risadinha de prazer, mostrando a brancura dos dentes, emoldurados pelos lábios rubros e o doirado-moreninho do rosto traquina.
É um flash; uma cena fugidia; centelha, que saltou da profundeza da memória, há décadas sepultada em remota gaveta.
Por sortilégio de benfazeja fada, emerge, de longe a longe, dos recôncavos do meu subconsciente, em turbilhão: episódios, diálogos do tempo de outrora.
Torno a escutar, antigos ecos ancestrais de vozes amigas, e chilreios de crianças, que já não são.
Vozes e chilreios, que se sumiram num tempo, que foi, mas já não é.
Esses flashes, são, para mim, saudosas recordações, que me enchem de alegria ou de amargura, a alma, já de si, e por natureza, nostálgica.
Nessa época passada, que passou – e jamais passará, – ainda acreditava, ingenuamente: que o amor era para sempre…; as promessas eternas…; e só por um ideal valia a pena viver! …
Para mim, a amizade, era infinita; e só seria feliz, se todos o fossem…
Era simples; simples, como a mais simples e humilde florzinha do campo, que acorda ao espreguiçar do primeiro raio da aurora, e morre no crepuscular, antes que as trevas cheguem.
Mas era feliz. Feliz, porque desconhecia as vicissitudes da vida, e a maldade e orgulho dos adultos: dos que sempre vivem de máscara no rosto e hipocrisia no coração…

Humberto Pinho da Silva, nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA.Foi redactor do jornal: “Notícias de Gaia"” e actualmente é o responsável pelo blogue luso-brasileiro: " PAZ".

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