quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Festas da Cidade

Por: António Orlando dos Santos (Bombadas)
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...") 


Cronologicamente estamos no fim do dia 23 de Agosto deste ano triste e tenebroso que nos impôs um "modus vivendi" que não é adaptável ao nosso caráter, que se ressente de tanta proibição, tanta incerteza e tanto autoritarismo não faltando para compor o ramo, alguma pieguice e abuso de autoridade, vindo de quem parece sentir que ralhando eles com as pessoas por não usarem a máscara, salvarão o mundo.
E depois vem a saudade dos tempos sem Pandemia que jamais pensámos relembrar como tempos de verdadeira Felicidade por vigorarem nessa altura os direitos liberdades e garantias que nos deixavam longe das cretinices dos mais papistas do que o papa.
Vem a propósito porque hoje sabemos que 800 anos de tradição e cultura de uma nação podem ser suprimidos por decreto de quem está no poder e o exerce com dois pesos e duas medidas.
Amanhã será dia de S. Bartolomeu e por artes de mágica não se fará nem sequer menção a tal efeméride. Como farão os de Argozelo que durante séculos sem que se perdesse um ano, festejaram este dia sob todas as condições impostas por Deus ou pelos homens, sem que fosse interrompida a tradição de se juntarem nesse dia para darem vivas ao Santo e louvarem ao Deus de Israel que afinal era pai do nosso e não podia ser esquecido? Mas este ano não imagino o que sucederá.
Eu da minha parte já fiquei sem Festas da Cidade. Resta-me lembrar das outras passadas que tanto me marcaram no tempo da minha infância. Relembro os sinais que se repetiam ano após ano e que começavam sempre com a preparação do jardim de baixo para as Verbenas. O Tio Américo jardineiro com a autoridade de que havia sido investido por quem de direito comandava o grupo de trabalhadores da Câmara na limpeza a fundo a fazer no Jardim. E fazia-o com zelo e competência. Nós avinagrávamos-lhe a paciência com a nossa insistência em não sairmos dali sem ver tudo bem visto para assim podermos passar palavra das novidades evidentes que a Comissão introduzia para o ano em curso. Depois vinha o Senhor José Sabino Ribeiro com a sua ciência oculta e mandava dependurar as caixas de som com que espalharia a música que alegraria e faria felizes as meninas e os rapazes em idade de namoro e que não perdiam tempo em se enfeitarem para serem notadas elas e apreciados eles. Era o tempo em que as raparigas namoravam com os rapazes e os rapazes com as raparigas, não havia outras espécies que não estas duas e ninguém sabia das coisas ocultas que a ciência desvendou e que têm que ver com hibridismo e quejandos. Nada disso, o Senhor Ribeiro punha música que fazia sonhar os descendentes de Adão e Eva e bastava.
Na Assembleia Nacional desse tempo não se faziam leis para não haver Festas, faziam-se para que elas decorressem com ordem e educação mesmo sabendo que havia gente com ideias iconoclastas que não queria que fossem avante. Mas esses não incomodavam pois eram tão poucos que não tinham força para mudar a história e proibirem os usos e costumes de um povo que até com fome adorava a sua festinha.
Depois chegavam os homens de "ópraíabaixo" que com as decorações de papel e madeira, mais umas centenas de lâmpadas coloridas enfeitavam a cidade que era um regalo vê-la. Caprichavam e tinham saber e arte os ascendentes dos atuais, que infelizmente, por não haver Festas este ano, não vão poder mostrar as maravilhas que produzem para encanto dos festeiros sem Festas deste "Annus Horribilís" onde faltará o ganha-pão a muita gente.
Depois chegava a caravana dos Carroceis, dos Carrinhos Elétricos e do Poço da Morte. Vinham também mil e uma barracas de fantasias as mais diversas e o povo adorava passear e ver tanta coisa nova e o ar recendia ao cheiro do caramelo e do açúcar, das farturas e dos mais variados odores das delícias que para a garotada era algo só comparável às histórias do Mosteiro de Alcobaça onde assavam um boi e faziam doce de ovos que só os frades e os nobres tinham direito a saborear. E no dia 22 saía a procissão com a Senhora das Graças, nossa Santa Mãe do Céu que espalhava luz que saía dos raios que a sua imagem mostra espalhados pelas suas santas mãos.
E ao fim do dia encerrava a festa com votos de que para o ano houvesse mais festa para alegrar o povo e assim aliviar a carga de trabalhos que é passar o dia da festa sem que haja festa.
Só mesmo a Pandemia e os políticos que a regulamentam ousariam impedir o povo de ter a sua Festa e deixar que outras festas que não cabem nos sonhos das crianças por demasiado ao gosto dos adultos ressabiados e obcecados, sejam levadas avante.




Bragança 23/08/2020
A. O. dos Santos
(Bombadas)

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