terça-feira, 18 de agosto de 2020

Nós Transmontanos, Sefarditas e Marranos - MANUEL LOPES, UM JUDEU DO TEMPO DA INQUISIÇÃO

No texto anterior acompanhamos Manuel Lopes na mudança de Chacim para Lisboa, pelo ano de de 1697. Na Primavera de 1699, aconteceu um verdadeiro êxodo da gente da nação de Chacim e Lebução, Bragança e Mogadouro, diretamente ligada à família de Manuel Lopes. 
Certamente aterrorizados com as sucessivas vagas de prisões que assolavam Trás-os-Montes, planearam a fuga para Livorno, a partir de Lisboa.(1) O plano terá sido elaborado em conjunto com familiares ou amigos que estavam já vivendo naquela cidade italiana. Concretamente, sabemos que Gaspar Lopes e Manuel Fernandes Pereira, que em Itália viviam, eram conhecidos, amigos, vizinhos e aparentados com o pai de Manuel Lopes. Veja-se a seguinte confissão feita na inquisição de Valhadolid por Luís Lopes Penha, irmão do Manuel: — Haverá 20 anos, estando no Mogadouro com seu pai, António Lopes Pereira (…) lhe dissera que havia dado notícia a Gaspar Lopes, seu vizinho, mercador que era por esse tempo no Mogadouro, como havia instruído na lei a ele declarante e assim cria e seguia como o dito Gaspar.
 E que também havia dado a mesma notícia a Ana Pereira, mulher do dito Gaspar, sobrinha de seu pai, e a Branca Pereira, filha dos mesmos Gaspar e Ana e a Manuel Fernandes Pereira, médico e marido de Branca Pereira.(2) Eram também aparentados com a família de António Rodrigues Mogadouro, que morreu na inquisição de Lisboa e seu sobrinho Gabriel de Medina, um grande empresário em Livorno, que tinha 4 ou 5 barcos ao seu serviço, segundo informação de Manuel Lopes, pelo que será legítimo colocar a hipótese de o plano de fuga daqueles 48 judeus ter sido arquitetado com ele. Não vamos aqui falar do plano, nem das circunstâncias que envolveram o embarque e a malograda fuga que terminou bem perto. 
Vamos apenas falar do reencontro de Manuel Lopes com alguns desses familiares que, alguns anos atrás, deixara em Trás-os-Montes, com essa “nação em fuga, de Trás-os-Montes”. Um dos grupos era constituído pelos seus tios Lopo Nunes Ferro e Isabel Cardosa, de Lebução, em cuja casa ele se criara até aos 12 anos. Com eles chegaram 2 de seus filhos, solteiros: Luís Lopes Penha(3) e Manuel Mendes. Neste grupo de gente ida de Lebução contava-se ainda uma filha de Lopo e Isabel, chamada Jerónima da Costa, o marido desta, Dr. Manuel António Nunes, médico (graduado em Salamanca, neto do Dr. Manuel Mendes, de Chaves) e a sua mãe, Violante Nunes (filha do mesmo Dr. Manuel Mendes e de sua primeira mulher, Beatriz Nunes, de Vinhais), v.ª de Ventura da Costa (irmão do citado Lopo Nunes). Integravam ainda o grupo de Lebução a tia Beatriz Cardosa, acompanhada do filho Luís Lopes Penha,(4) da nora, Feliciana Rodrigues (natural de Peyreorade) e 4 netos, o mais velho dos quais andaria pelos 8 anos. 
Estas 14 pessoas chegaram a Lisboa ao final do mês de Março, conforme contou Manuel Lopes aos inquisidores de Barcelona: — As ditas famílias no tempo que ali estiveram detidas que não sabe o tempo certo, mas lhe parece que foram alguns 20 dias viveram numa casa junto ao Correio, que tinha sido arrendada e prevenida por Domingos da Costa para outra família, que não sabe quem era que havia de vir de Bragança.(5) Da cidade do Porto chegou um outro filho de Lopo e Isabel, chamado Ventura António Nunes Ferro,(6) acompanhado da mulher, Branca Jerónima da Costa, da cunhada, Mécia Marcos, e da sogra Maria Henriques, filhas e mulher do Dr. Francisco Marcos Ferro, de Torre de Moncorvo, que então se encontrava preso na inquisição de Coimbra, acrescentando Manuel Lopes a seguinte informação: — Tendo saído Francisco Marcos da inquisição, foi à cidade do Porto, onde tinha fazenda, e sabendo que a dita sua mulher e filhas estavam fora da inquisição e com esta notícia o dito Francisco Marcos foi a Lisboa e dali mandou-as chamar e foram para Faro, onde de presente vive, com tenda de diferentes mercadorias (…) e ele tinha-os visto em Lisboa (…) em casa dos sobreditos que era na Rua da Palma.(7) Ao Lagar do Sebo, em Lisboa, iam muitas vezes o Manuel Lopes e o irmão e mais ainda a Beatriz Pereira, sua cunhada, a casa de um parente chamado Francisco Rodrigues Pereira Lopes, o Porron,(8) de alcunha, natural de Mogadouro, e sua mulher, Ana Lopes, de Chacim. Aliás, visitavam-se mútua e frequentemente, como disse Manuel Lopes: — O motivo que teve ele confessante de o conhecer e tratar ao dito Francisco Lopes e a sua mulher e filhos, foi por ter vindo para a sua casa desde a cidade do Porto, o dito Francisco Lopes, seu primo, de quem tem declarado em audiências antecedentes, e ter ido a vê-lo em companhia do dito João Ventura, seu irmão e repetiram juntos algumas vezes as visitas e outras ia ele sozinho. E mediante este trato e familiaridade viu em repetidas ocasiões que se juntavam e visitavam numa casa e em outra, a dita Ana Lopes e Beatriz Pereira, mulher de seu irmão João Ventura.(9) 
A vida do Porron em Lisboa não seria fácil a crer no testemunho de Manuel Lopes, que “não viu que Francisco Lopes tivesse ofício algum e vivia de esmolas que lhe davam e de lavrar chocolate e vendê-lo”. Também ele e a mulher, a filha e 2 filhos que tinha, embarcaram para Livorno, “na ocasião que a dita Isabel Cardosa embarcou no mesmo navio; e para se sustentar na viagem juntou dos ditos judeus, que lhe davam esmola, quantidade de dinheiro para que se proviesse nesse ano na embarcação”. Ana Lopes era natural de Chacim e tinha uma irmã chamada Beatriz Lopes, casada com Manuel de Sá, em Rebordelo, junto a Lebução. 
E estes foram outros dos membros da “nação” que rumaram a Lisboa, com intento de fugir para Livorno. Manuel Sá era um dos 3 passageiros que levavam mercadoria consignada a Gabriel Medina – 22 rolos de tabaco e 4 caixas de açúcar branco. Não vamos aqui falar dos outros fugitivos (eram 48 no total) nem da tripulação do barco. Diremos tão só que o navio estava registado no porto de Génova e zarpou de Lisboa em 13.4.1699. 
Três dias depois, aportaram a Cádis e todos os fugitivos foram presos pela inquisição de Castela. Mas estas são contas de outro rosário.


António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães

Sem comentários:

Enviar um comentário