quinta-feira, 27 de maio de 2021

A infinidade do bulling

 1999. Numa escola de uma cidade tranquila dois rapazes, no intervalo, deitam perfume para o cabelo de uma rapariga e, de seguida, aproximam-lhe um isqueiro. Uma parte do cabelo arde quase até à raiz. A miúda de 14 anos, e a colega que estava ao lado dela, ficam paradas no banco de pedra junto ao “barracão”, o edifício de pré-fabricado onde iam ter a aula seguinte. A rapariga chora, a colega consola-a enquanto os dois rapazes, um ano mais velhos, se afastam a rir às gargalhadas. Os colegas chegam, perto da hora de tocar e todos perguntam o que aconteceu e são unânimes: “não digas nada que sabes que ainda fazem pior”. E a rapariga não fez.

Na aula seguinte, de físico-química, batem à porta. Um dos rapazes que tinha lançado fogo pede para falar com a vítima. Ela pede à professora para não ir à porta. A Professora diz ao rapaz que não e ele insiste. Um colega da turma mais extrovertido diz a Professora que tinham queimado o cabelo à Colega, como ela podia ver, e a Professora diz que não pode ter a aula interrompida por isso, que foi certamente uma brincadeira e manda a Aluna sair para ir falar com o rapaz. Também a professora não o contrariava porque bem o conhecia nem acompanhou a miúda. E a rapariga, já frágil, foi ameaçada que a queimariam mais se dissesse algo a alguém, sozinha, em frente à sala de aula, de onde tinha sido mandada sair pela própria Professora.

A cidade era Bragança. A Escola a Secundária Abade de Baçal. E a rapariga de 14 anos era eu.

Há 22 anos não se falava de bulling. Felizmente tive o apoio dos meus Pais e o assunto foi tratado. Mas não deixei de ficar marcada com o que aconteceu ou de ter medo, pânico. Ainda hoje, quando me recordo da situação, sinto uma mistura de sentimentos, entre raiva, desespero, pânico e incapacidade de fazer algo por mim, de me sentir pessoa. E sinto-me frágil.

O bulling não é algo simples e, apesar de quase unanimemente criticado, faz parte do nosso dia-a-dia. Sai reforçado quando dizemos aos nossos filhos que são muito mais bonitos que o “gordo” da turma ou para não se sentirem diminuídos com o colega que “nem tem uma mochila da moda como a tua”. Sai ainda vencedor quando, nas escolas desde os anos mais precoces, os professores o criticam dentro da sala, em conversa de grupo, mas no recreio dizem à criança para desvalorizar o comportamento do colega que diz que ele não fala bem ou que é uma caixa de óculos e o manda ir brincar com outros meninos. E é esta a grande arma do bulling: sermos todos contra mas não nos abstermos de, na prática, desvaloriza-lo ou até dar dele exemplos, ainda que indiretamente.

É discutível que vídeos onde se vejam atrocidades contra crianças mais frágeis sejam publicados. Mas sinceramente acho que só quando somos confrontados com situações limites, como o do miúdo que foi atropelado para fugir dos agressores e com vários espectadores a assistir, percebemos a gravidade do que se passa. Porque só de imaginarmos que quem amamos podia ser a vítima - porque é de um crime que falamos - não conseguimos ficar indiferentes.

Urge que consigamos fazer a diferença, mais do que com discursos, com exemplos. Urge que os educadores, professores e auxiliares ajudem a construir com os gestos um novo mundo e não só com o discurso direto. Urge que também nos, adultos, não nos calemos quando alguém mais frágil é violentado de alguma maneira. Urge que consigamos ultrapassar o medo que tantos de nós sentimos alguma vez na vida e fazer a diferença. Urge que, como Pais de vítimas, os saibamos manter confiantes, como Pais de espectadores os eduquemos para conseguirem intervir e, como Pais de agressores, os saibamos apoiar para a mudança mas sem nunca desvalorizar o que de grave fizeram.

As palavras marcam para sempre. As agressões duram bem mais que as marcas físicas. E o pânico das ameaças não se esbate com o tempo. O tempo não cura o bulling. A memória não se apaga, Não só pelo que guarda do momento, mas pelo que o mesmo ecoará para sempre nas vidas de cada vítima.

Ana Soares

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