quarta-feira, 22 de abril de 2020

Notícias da aldeia... a aguardente será a redenção

Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

Tudo na mesma… os cerdeiros não se esquecem e aguardam pacientemente o vermelho das cerejas. A rosa anuncia-se no recato do botão… Os idosos continuam gemendo e mancando e lá vão dizendo: - O que nos havia de acontecer! Nunca se viu nada assim!… Mas na verdade a sua vida pouco mudou… e a estrada continua a ser o lugar de todas as esperas depois das longas partidas… Os cães vagueiam… livres como sempre ladrando ao desconhecido na ausência dos automóveis que animavam o longo silêncio do povoado.
… tudo na mesma… e logo será agosto… e os filhos hão de vir para a festa do verão e para em breve dizerem entre lágrimas: - Até para o ano!
… adeus meu filho que se calhar não te volto a ver! A estrada lá está… sempre a mesma… sempre a estrada que traz e leva os sonhos e o amor! Que fatalismo!
Um vizinho, rapaz do meu tempo, aproxima-se como quem não quer a coisa.
- Pois é… o tempo está nos a lixar… ora chove, ora faz sol! Não há quem entre nas hortas!… Mas olha uma coisa… ainda tens aguardente?… Calou-se… Um breve silêncio como quem perscruta o tempo certo para revelar um segredo.
- É que a aguardente tem mezinha… é boa para tudo… até para matar o bicho… e no tempo em que estamos nada melhor que a aguardente!… Lembras-te dos velhos que todas as manhãs iam beber um copico de aguardente à taberna?! Pois é… era para matar o bicho… eles é que sabiam… e duraram uma catrefada de anos!… Eu logo já te trago mais um garrafão de aguardente… da boa!
… obrigado amigo!
Afastou-se satisfeito como quem cumpre um dever de aconselhar os amigos na sabedoria ancestral dos mais velhos… e a aguardente será a redenção!
… o problema é que eu não gosto de aguardente!


Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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