terça-feira, 28 de abril de 2020

O PINTOR

Por: António Orlando dos Santos (Bombadas)
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


O Pintor de Girassois é um retrato de Vincent van Gogh
 pintado por Paul Gauguin em dezembro de 1888.
Era nos primeiros dias de Março e as manhãs já mostravam a doçura dum tempo primaveril. Havia nos campos uma verdura manchada de flores que nos seus tons amarelos e vermelhos, amaciados de outras tonalidades, faziam abrir os olhos para a bela tarefa de viver.
O pintor era um amante das coisas da Natureza. Não perdia ocasião, observador, desde menino, sabia entender de luz e contrastes. É que para se ser feliz necessita-se de ter olhos e saber-se usá-los. Madrugador, relaxava-o o caminhar no Parque que no seu traçado, pensado e intencional destacava as formas e o volume das coisas. Árvores e arbustos, canteiros de rosas e camélias estas tão singelas na sua cor rubra, aquelas, suaves com cores mais aguadas mas acetinadas faziam contraste com o colorido excêntrico dos amores-perfeitos que no chão mostravam a profusão maior das cores das manhãs. As aves passavam, as maiores mais alto subindo à coroa das árvores onde se juntavam aos pares como nos namoros de adolescentes sonhadores em que os beijos são o alfa e ómega daquele sentimento que chamam de amor.
Ele sempre gostara de as ver voar, ou de as ver pousadas nas silvas e arbustos, ou de as seguir correndo num afão permanente, da luz para a sombra, do fresco para o sol. O Pintor sonhava acordado e ia concebendo aos poucos a tela que sempre desejara pintar.
Ao longo da vida, com os afazeres diários não havia tido nem tempo nem força criadora para pintar a obra que ele imaginava poder oferecer aos homens e mulheres que, como ele, gostavam das maravilhas da criação. Agora o tempo livre era maior, muitíssimo maior e talvez se ele reunisse a vontade de criar, ainda tivesse a força e o engenho para passar à tela o que reter desse imaginário que as cores e formas formavam efemeramente. E assim se foi convencendo que poderia aumentar a sua Felicidade, alicerçada nas coisas bonitas que lhe eram dadas observar.
Uma manhã desse Março que despontava, depois do passeio e já com o espírito calmo e decidido resolveu começar a obra. Preparou a tela, alinhou os pincéis e depois de colocar tudo em posição, graduou o cavalete e pegando no lápis riscou a brancura de um quadrado que preenchia o mundo. Já os anos lhe haviam dado cabelos de prata e já a força nos braços o havia quase abandonado, mas a Natureza que lhos oferecera vigorosos e belos, também lhos retirara e paulatinamente os enfraquecera. Restava ainda o bastante para que com tempo e paciência ele a pudesse criar com a sua sensibilidade que agora era mais refinada que na juventude a imagem que refletisse a Natureza que ele via e os outros nem suspeitavam começou a crescer dento do perímetro da tela.
Passaram os dias e a obra foi tomando forma. Primeiro o fundo da imagem foi calculado, proporcional, depois o espaço que recebesse a volumetria do edificado decadente e no tempo certo o elemento forte que continha o núcleo da beleza que naturalmente sempre o entusiasmara, as árvores e os bichos, os de terra e os das alturas. Desenhou o fundo e nos ramos das árvores colocou as aves que sulcam os céus e as pequeninas que enfeitam a terra. Colocou-lhe o bico, estendeu-lhe as penas, desenhou-lhe as garras, abriu-lhe as asas e coloriu-lhe a figura. Aqui, um pisco, depois um pardal, de seguida um verdilhão e dois pintassilgos. Fez igual, mais lá bem no alto e com mestria fez que tomassem vida as aves do céu. Pintou um falcão e uma águia real, que em voo picado buscavam sustento, fez algumas nuvens que escondiam chuva que hoje não faria as aves recolherem cedo e com o pincel fez uma cópia do que no seu cérebro esteve guardado por toda uma vida de fascinação.
Março ia alto e a obra denotava já a riqueza de pormenores que as flores do parque lhe gravaram na mente. Repousou e já quase em Abril lavou os pincéis e assobiou. Era a melodia que com suas notas descreve também e com igual encanto a magia imensa de uma Primavera de luz e beleza. Era coisa linda, melodia antiga que um frade nos quis contar por notas e sons as cores e a brisa, os silêncios e os murmúrios de uma manhã de Primavera das que Deus lhe concedeu viver.
O Pintor assobiava a Primavera de António Vivaldi e a paz desceu e o envolveu. Abril chegado a obra parou, Colocou -lhe uma moldura e dependurou-a na sala de estar. Havia conseguido criar com as suas mãos a réplica do seu próprio pensamento, algo que a humanidade que o substituísse nas horas que sentia esgotarem-se, tivessem por falta de Primaveras no futuro, uma imagem do tempo que ele sentira.
E então, contra o conselho das Autoridades de Saúde e a imposição do Governo da Nação, colocou a máscara cirúrgica apertou o casaco e saiu à rua para caminhar e sentir em si a Primavera que já em Abril estava mais bela do que jamais estivera! Abril foi correndo e o Pintor pensou: -Que belo é viver, que bom é amar e tão bom repartir. E do fundo desta constatação, tão elementar concluiu: -A beleza e o bem querer são o que de melhor Deus nos concedeu!
Mas infelizmente, outras forças que germinam nos corações das gentes que se deslumbram com o poder, outro não pensam, senão em perfídias que fazem ofuscar o que as Primaveras passadas deste mundo lindo, não foram capazes de lhe esclarecerem na razão. O pintor cá fora aconchegou a gola do casaco ao rosto cobrindo o colo. Caminhou então e em vez de flores e pássaros voando caminhou ao encontro do vírus Covid 19 de sinistra invenção.
E ainda faltava Maio e parte de Junho… Será que a Primavera cessará precocemente? Pensou. E sem resposta continuou a caminhar, admitindo que nem as árvores ou sequer as aves pareciam pressenti-lo. Continuavam a viver e nós, viveremos? Sabe-o Deus!





Bragança 28/04/2020 
A. O. dos Santos
(Bombadas)

Sem comentários:

Enviar um comentário