quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Alexandre Herculano: "O Castelo de Faria" - (LENDA DE 1373)

A breve distância da vila de Barcelos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longe  um convento de Franciscanos. Aprazível é o sítio, sombreado de velhas  árvores. Sentem-se ali o murmurar das águas e a bafagem suave do vento,  harmonia da natureza, que quebra o silêncio daquela solidão, a qual, para nos  servirmos de uma expressão de Fr. Bernardo de Brito, com a saudade dos  seus horizontes parece encaminhar e chamar o espírito à contemplação das  coisas celestes.

O monte que se alevanta ao pé do humilde convento é formoso, mas áspero e  severo, como quase todos os montes do Minho. Da sua coroa descobre-se ao  longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra. O  espectador colocado no cimo daquela eminência volta-se para um e outro  lado, e as povoações e os rios, os prados e as fragas, os soutos e os pinhais  apresentam-lhe o panorama variadíssimo que se descobre de qualquer ponto  elevado da província de Entre-Douro-e-Minho.

Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já  sobre ele se ouviram gritos de combatentes, ânsias de moribundos, estridor de  habitações incendiadas, sibilar de setas e estrondo de máquinas de guerra.  Claros sinais de que ali viveram homens: porque é com estas balizas que eles  costumam deixar assinalados os sítios que escolheram para habitar na terra.  

O castelo de Faria, com as suas torres e ameias, com a sua barbacã e fosso,  com os seus postigos e alçapões ferrados, campeou aí como dominador dos  vales vizinhos. Castelo real da Idade Média, a sua origem some-se nas trevas  dos tempos que já lá vão há muito: mas a febre lenta que costuma devorar os  gigantes de mármore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o  antigo alcácer das eras dos reis de Leão desmoronou-se e caiu. Ainda no  século dezessete parte da sua ossada estava dispersa por aquelas encostas: no  século seguinte já nenhuns vestígios dele restavam, segundo o testemunho de  um historiador nosso. Um eremitério, fundado pelo célebre Egas Moniz, era o  único eco do passado que aí restava. Na ermida servia de altar uma pedra  trazida  de Ceuta pelo primeiro Duque de Bragança, D. Afonso. Era esta lájea  a mesa em que costumava comer Salat-ibn-Salat, último senhor de Ceuta. D.  Afonso, que seguira seu pai D. João I na conquista daquela cidade, trouxe esta  pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a consigo para a vila de  Barcelos, cujo conde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa  pedra em ara do cristianismo. Se ainda existe, quem sabe qual será o seu  futuro destino?

Serviram os fragmentos do castelo de Faria para se construir o convento  edificado ao sopé do monte. Assim se converteram em dormitórios as salas de  armas, as ameias das torres em bordas de sepulturas, os umbrais das  balhesteiras e postigos em janelas claustrais. O ruído dos combates calou no  alto do monte, e nas faldas dele alevantaram-se a harmonia dos salmos e o  sussurro das orações.

Este antigo castelo tinha recordações de glória. Os nossos maiores, porém,  curavam mais de praticar façanhas do que de conservar os monumentos delas.  Deixaram, por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras  que foram testemunhas de um dos mais heroicos feitos de corações  portugueses.

Reinava entre nós D. Fernando. Este príncipe, que tanto degenerava dos seus  antepassados em valor e prudência, fora obrigado a fazer paz com os   castelhanos, depois de uma guerra infeliz, intentada sem justificados motivos,  e em que se esgotaram inteiramente os tesouros do Estado. A condição  principal, com que se pôs termo a esta luta desastrosa, foi que D. Fernando  casasse com a filha d’el-rei de Castela: mas, brevemente, a guerra se acendeu  de novo; porque D. Fernando, namorado de D. Leonor Teles, sem lhe  importar o contrato de que dependia o repouso dos seus vassalos, a recebeu  por mulher, com afronta da princesa castelhana. Resolveu-se o pai a tomar  vingança da injúria, ao que o aconselhavam ainda outros motivos. Entrou em  Portugal com um exército e, recusando D. Fernando aceitar-lhe batalha, veio  sobre Lisboa e cercou-a. Não sendo o nosso propósito narrar os sucessos  deste sítio, volveremos o fio do discurso para o que sucedeu no Minho.  

O Adiantado de Galiza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela província de  Entre-Douro-e-Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavalo,  enquanto a maior parte do pequeno exército português trabalhava inutilmente  ou por defender ou por descercar Lisboa. Prendendo, matando e saqueando,  veio o Adiantado até as imediações de Barcelos, sem achar quem lhe atalhasse  o passo; aqui, porém, saiu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel, conde de  Ceia e tio d’el-rei D. Fernando, com a gente que pôde juntar. Foi terrível o  conflito; mas, por fim, foram desbaratados os portugueses, caindo alguns nas  mãos dos adversários.

Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mor do castelo de Faria, Nuno  Gonçalves. Saíra este com alguns soldados para socorrer o conde de Ceia,  vindo, assim, a ser companheiro na comum desgraça. Cativo, o valoroso  alcaide pensava em como salvaria o castelo d’el-rei seu senhor das mãos dos  inimigos. Governava-o na sua ausência, um seu filho, e era de crer que, vendo  o pai em ferros, de bom grado desse a fortaleza para o libertar, muito mais  quando os meios de defensão escasseavam. Estas considerações sugeriram um  ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao Adiantado que o mandasse conduzir ao pé  dos muros do castelo, porque ele, com as suas exortações, faria com que o  filho o entregasse, sem derramamento de sangue.

Um troço de besteiros e de homens d'armas subiu a encosta do monte da  Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonçalves. O  Adiantado de Galiza seguia atrás com o grosso da hoste, e a costaneira ou ala   direita, capitaneada por João Rodrigues de Viedma, estendia-se, rodeando os  muros pelo outro lado. O exército vitorioso ia tomar posse do castelo de  Faria, que lhe prometera dar nas mãos o seu cativo alcaide.

De roda da barbacã alvejavam as casinhas da pequena povoação de Faria: mas  silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as  bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas ao vento, e viram o refulgir  cintilante das armas inimigas, abandonando os seus lares, foram acolher-se no  terreiro que se estendia entre os muros negros do castelo e a cerca exterior ou  barbacã.

Nas torres, os atalaias vigiavam atentamente a campanha, e os almocadens  corriam com a rolda(*) pelas quadrelas do muro e subiam aos cubelos  colocados nos ângulos das muralhas.

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[(*) Roldas e sobrerroldas eram os soldados e oficiais encarregados de rondarem os postos e atalaias.] ------

O terreiro onde se tinham acolhido os habitantes da povoação estava coberto  de choupanas colmadas, nas quais se abrigava a turba dos velhos, das  mulheres e das crianças, que ali se julgavam seguros da violência de inimigos  desapiedados.

Quando o troço dos homens d'armas que levavam preso Nuno Gonçalves  vinha já a pouca distância da barbacã, os besteiros que coroavam as ameias  encurvaram as bestas, e os homens dos engenhos prepararam-se para arrojar  sobre os contrários as suas quadrelas e virotões, enquanto o clamor e o choro  se alevantavam no terreiro, onde o povo inerme estava apinhado.

Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a  barbacã, todas as bestas se inclinaram para o chão, e o ranger das máquinas  converteu-se num silêncio profundo.

— "Moço alcaide, moço alcaide! — bradou o arauto — teu pai, cativo do  muito nobre Pedro Rodriguez Sarmento, Adiantado de Galiza pelo muito  excelente e temido D. Henrique de Castela, deseja falar contigo, de fora do teu  castelo."

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro e,  chegando à barbacã, disse ao arauto — "A Virgem proteja meu pai: dizei-lhe  que eu o espero."

O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e  depois de breve demora, o tropel aproximou-se da barbacã. Chegados ao pé  dela, o velho guerreiro saiu dentre os seus guardadores, e falou com o filho:

"Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castelo, que, segundo o regimento  de guerra, entreguei à tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforçado  conde de Ceia?"

— "É — respondeu Gonçalo Nunes — do nosso rei e senhor D.  Fernando de Portugal, a quem por ele fizeste preito e menagem." — "Sabes  tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por  nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das  ruínas dele?"

— "Sei, oh meu pai! — prosseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não  ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar. — Mas não vês que  a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a  resistência?"

Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou  então: — "Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do castelo de Faria!  Maldito por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora  em que os que me cercam entrarem nesse castelo, sem tropeçarem no teu  cadáver."

— "Morra! — gritou o almocadem castelhano — morra o que nos  atraiçoou." — E Nuno Gonçalves caiu no chão atravessado de muitas espadas  e lanças.

— "Defende-te, alcaide!" — foram as últimas palavras que ele murmurou.

Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança.  Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande porção dos   assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do  homem leal ao seu juramento.

Os castelhanos acometeram o castelo; no primeiro dia de combate o terreiro  da barbacã ficou alastrado de cadáveres tisnados e de colmos e ramos  reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido  com a ponta da sua longa chuça um colmeiro incendiado para dentro da cerca;  o vento suão soprava nesse dia com violência, e em breve os habitantes da  povoação, que tinham buscado o amparo do castelo, pereceram juntamente  com as suas frágeis moradas.

Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldição do seu pai: lembrava-se de que  o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos os momentos  o último grito do bom Nuno Gonçalves — "Defende-te, alcaide!"

O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do  castelo de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exército  castelhano foi constrangido a levantar o cerco.

Gonçalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso  procedimento e pelas façanhas que obrara na defensão da fortaleza cuja  guarda lhe fora encomendada pelo seu pai no último trance da vida. Mas a  lembrança do horrível sucesso estava sempre presente no espírito do moço  alcaide. Pedindo a el-rei o desonerasse do cargo que tão bem desempenhara, foi depor ao pé dos altares a cervilheira e o saio de cavaleiro, para se cobrir   com as vestes pacíficas do sacerdócio. Ministro do santuário, era com lágrimas  e preces que ele podia pagar ao seu pai o ter coberto de perpétua glória o  nome dos alcaides de Faria.

Mas esta glória, não há hoje ai uma única pedra que a ateste. As relações dos  historiadores foram mais duradouras que o mármore.

Nota:
Alexandre Herculano: "Lendas e Narrativas" (1851)  

1 comentário:

  1. No livro da 3ª classe da I.P. na década de 1950, havia uma lição referente a esta passagem histórica protagonizada pelo alcaide do castelo de Faria; Nuno Gonçalves e seu filho Gonçalo Nunes. Gostei de ler na íntegra o trabalho de Alexandre Herculano referente à defesa do castelo de Faria.

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