quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

O MILAGRE DE BRAGANÇA - Romance - Fernando Calado

Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
 
Era dia da consoada. A Antónia levantou-se cedo para ir à praça, comprar as couves tronchas, o polvo e mais algumas miudezas para a longa noite da ceia natalícia.
Quando regressou a casa, já os caixeiros da rua Direita e do Tombeirinho abriam as pesadas portas de madeira de castanho, pintadas de verde e cor de vinho, para oferecerem aos seus clientes as mercadorias do seu ramo de negócio.
Nas mercearias cheirava a bacalhau e a polvo de meia cura. Era Natal!
Sentia-se a falta da animação dos estudantes que já estavam de férias. As carvoeiras de Gimonde e da Aveleda percorriam as ruas da cidade com os burros carregados de carvão, urzes e carquejas. Ouviam-se os pregões. O dia estava frio e as carvoeiras haviam de fazer bom negócio. Na noite de natal todas as famílias acendem muitas braseiras para amaciar a fria noite da consoada. As lavadeiras de Alfaião passavam com grandes sacos de roupa branca que lavavam no rio da aldeia e punham a corar ao sol mortiço de dezembro.
As ruas da cidade estavam na verdade muito movimentadas, com burros, carroças e pessoas que vinham aos Sotos fazer as últimas compras. Gente da aldeia, mulheres de lenço, envoltas em pesados xailes de lã, homens de capote, alguns de samarra, vendiam pelas ruas produtos da horta e da capoeira.
As tabernas deixavam no ar um fumo branco com cheiro a canela. As filhoses e rabanadas alouravam.
As mães entravam nos comércios de mercearias da praça da Sé e faziam embrulhos com as folhas mais coloridas do Primeiro de Janeiro. Meia dúzia de rebuçados de meio tostão, uns figos secos vindos de Moncorvo e umas meias de lã de ovelha faziam o presente divino que à meia-noite em ponto, um menino Jesus pobre, acabadinho de nascer, havia de deixar junto da lareira! E todo o céu envolto no frio bragançano se iluminava.
- Meu pai, estes rebuçados são iguaizinhos aos que se vendem no comércio da praça! Diziam os filhos sonhando com botas quentes e fatos novos. Diziam só por dizer.
- Não, esses são melhores, são do céu! Retorquíam os pais, muito sérios, também sonhando com os fatos domingueiros que ficavam alinhados e muito bem passados nas vitrinas dos alfaiates da Rua Direita.
O Sr. reitor ia cear em casa com a família e alguns amigos mais chegados e pediu à Antónia que desse uma ajudinha na cozinha e fosse lá consoar e levasse também a Margarida e o seu tio Abel!
A Antónia era uma excelente dona de casa, tinha sido educada no convento das freiras de Santa Clara, pois muito jovem ficou órfã de pai e mãe que morreram, vítimas dumas pestes que assolaram a cidade. Todos os dias e durante longos meses, Bragança acordava com os sinos que tocavam a finados. A Igreja da Misericórdia tinha longas faixas pretas penduradas nas paredes.
Nas épocas festivas, a Antónia ficava ainda mais triste e repetia como quem reza uma frase que lhe era peculiar:
- Antónia, Antónia, que fazes tu aqui!
E as árvores sem folhas da Praça da Sé pareciam Cristos crucificados, dolorosamente, numa cidade antiquíssima, numa cidade de província, a nordeste.
- Que Calvário! Pensou a Antónia enquanto carregava no braço o cabaz das compras natalícias.
Vindo da Estação do caminho-de-ferro passava o Cara Linda, o caixeiro do comércio do Sr. Barbosa Pinto, carregando numa carroça, puxada por dois machos, umas malas cheias de louças e potes de ferro.
- Antónia, és a minha perdição, mulher! Podias ter casado comigo, na capelinha do Senhor dos Aflitos! Fazia-te feliz. Assim Deus me salve!
- Não se diz o nome de Deus em vão… palerma!
Atirou ameaçador um cónego da Sé que passeava junto ao solar dos Calaínhos, enquanto se faziam horas para a missa das nove. O cónego era um homem alto, robusto, de quem se contavam façanhas de valentia e não gostava de palermices. Palerma! O caixeiro não disse nada, envergonhado e temeroso, pois conhecia o mau feitio desse cónego da Sé velha.
E a Antónia continuou o seu caminho, sem dizer uma palavra, ou esboçar um gesto, enquanto o som metálico da carroça se perdia no fundo da rua Direita. Afinal, ela era uma mulher casada.
Um grupo de freiras, silenciosas, mendigavam pela cidade, para as obras de caridade e Antónia pensou que podia ter ido para freira e pedir pelos bairros no conforto duma tristeza santificada. E o seu coração ficou mais negro que o hábito cingido das freiras mendicantes.
E enquanto subia a Costa Grande, Antónia reviu a sua vida, como se os fantasmas de tantos natais assombrassem o seu caminho.
Por momentos, pensou que talvez tivesse sido melhor ter casado com o Cara Linda, é um bom homem, caixeiro dum grande comércio de retalho, talvez a fizesse feliz, talvez a ajudasse a cuidar da casa, a amanhar a horta, perto da quinta da Rica Fé e ela sempre tinha alguém por quem esperar ao fim do dia.
Mas, a imagem da Margarida de novo invadiu os seus pensamentos, e ela sorria… olhos de estrelas do presépio… e era tão bonita!
Para os lados da serra de Nogueira, o céu era branco. Nevava.
Mas, como um pesadelo, lembrou-se da noite, da passagem de ano de 1899. Festejava-se o início do novo século e foi ao baile de gala no Clube dos Caçadores, no edifício redondo da Praça da Sé.
Já tinha 20 anos, casara-se ao fazer os dezoito.
De novo viu entrar o alferes do Regimento de Infantaria 10. Fardado. Era alto. Olhos negros. Ouvia-se uma valsa. Triste. E doía ao som do violino. Já então se falava de guerras e o Regimento já andava em manobras.
No palco, os irmãos Tavares tocavam guitarra, o Alfredo do quiosque tocava bandolim e o Sr. Professor Gonçalves acompanhava com o violino. Os cabelos lustrosos cheiravam a brilhantina.
Ela estava no outro canto da sala, sentada, junto com o seu homem. A Margarida, tinha 2 meses, ficara na casa duma vizinha, na rua do Picadeiro. Tinham sido convidados para o baile, pelo Sargento Andrade que era o responsável por distribuir as sobras do rancho pelas famílias mais pobres que viviam na Vila, nas proximidades do castelo, onde era o quartel.
O Sargento sempre foi muito generoso com ela, com o marido, com a Margarida, num tempo de fome em que a cidade se vergava à miséria, depois dum outro tempo em que Bragança foi próspera e vendia a seda que era exportada para o Brasil e para a Rússia.
A noite estava quente, nem parecia Dezembro. O conjunto tocava músicas cada vez mais dolentes e ouvia-se o violino como quem chora, afagando a noite.
E o alferes de infantaria estava muito triste e por acaso os olhos negros do militar cruzaram-se com os da Antónia. Sem saber porquê corou. Acho que já não estava ali. De novo os olhos se cruzaram. E teve medo. Talvez fosse melhor irem embora, disse para o marido. O marido disse que não. Que esperasse ali, que ele só ia à taberna do Lá Vai Um beber um copo, dar duas de conversa com o entalhador da rua das Amoreiras e logo viria.
Antónia já sabia que o seu homem não ia beber um copo, dar duas de conversa com o entalhador, mas ia para a caleja da rua do Norte onde a passagem de ano era mais animada, numa casa de prostitutas que tinham casa posta e negócio naquele beco. Mas, não disse nada. Só os olhos ficaram marejados de lágrimas. Rio em remanso.
No baile do Clube estavam as senhoras mais finas da cidade, professores do Liceu, os militares ostentando os galões que brilhavam na noite, alguns comerciantes da rua Direita, judeus ricos, caixeiros-viajantes que estavam de passagem.
E ela estava muito triste!
- Queres dançar, ou já tens par? Pediu o Jaime da Vila com o ar mais boçal do mundo. A Antónia sentiu-se ofendida. Memórias antigas.
Como se acordasse dum sonho, cheio de pesadelos e tristezas, viu à sua frente o alferes de infantaria, também ainda mais triste. Era tão bonito.
- A Senhora dança?!
- Claro que danço! Disse a Antónia, magoada com o marido, sem pensar, como se soubesse, desde sempre que estava ali para dançar. O alferes apertou-a ligeiramente ao peito. A valsa já não se ouvia, só as mãos se colaram e acho que foi feliz! No ar havia um cheiro a canela vinda das campanhas de África. E não disse nada. A música terminou e o alferes tão perto. Depois teve medo! Pegou no xaile e saiu apressada do salão. Era uma menina. Tinha vinte e poucos anos.
O alferes ainda lhe disse num sussurro:
- Quando a volto a ver?!
- Não sei!
E saiu tremendo para a noite bragançana onde se desenhava um magnífico luar de Janeiro.
Porque se lembrou agora disto?! Pensou a Antónia, olhando uma revoada de estorninhos que pousavam como uma nuvem negra na torre de Menagem.
Chegou a casa do Sr. reitor. Pousou as compras e ficou triste consigo própria e em ter ido desenterrar estes pensamentos que eram a sua desgraça e o seu segredo, um segredo só seu. Tão distante. Ficou com raiva!
- Bom dia, Antónia!
- Bom dia, Sr. reitor e bom Natal!
Prontamente arrumou as compras, limpou os olhos e foi tratar da vida.

In: O Milagre de Bragança

UM BOM E FELIZ NATAL PARA TODAS AS MINHAS AMIGAS E AMIGOS. UM ABRAÇO do Fernando Calado

Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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